Aula 2 (Radioatividade)

Por Alexandre Lima

  • O mecanismo dos decaimentos radioativos

Em um outro momento deste curso, estudamos de maneira geral a ocorrência de decaimentos radioativos e analisamos as circunstâncias que influenciam a estabilidade nuclear, favorecendo determinada modalidade de decaimento radioativo.

De um modo geral, tais decaimentos são processos irreversíveis cuja velocidade segue uma cinética química de primeira ordem. No tocante à velocidade de um decaimento radioativo, duas observações devem ser feitas em adição ao conteúdo ministrado nas aulas do curso de cinética química:

  1. A velocidade do decaimento radioativo - isto é, a quantidade de emissões radioativas verificadas para um intervalo de tempo - é chamada de atividade radioativa e é proporcional ao número de nuclídeos presentes na amostra em análise a cada instante. Consequentemente, podemos calcular a atividade radioativa a cada instante como uma função da quantidade de matéria do isótopo radioativo em questão, isto é, A = \lambda N_{isotopo}
  2. A constante radioativa, \lambda, é tecnicamente equivalente à constante de velocidade em uma reação genérica de primeira ordem, valendo uma ressalva: a constante radioativa não depende da temperatura do meio. Esse fato é qualitativamente compreensível: note que a importância da temperatura na velocidade de uma reação reflete a quantidade de matéria de reagentes que efetivamente alcança a energia de ativação do processo. Uma vez que a energia de ativação de decaimentos radioativos é extraordinariamente elevada, é improvável que variações de temperatura exequíveis na Terra afetem significativamente a velocidade de um decaimento radioativo.

 

Figura 1: A equação integrada para fenômenos químicos de primeira ordem pode ser aplicada ao contexto de decaimentos radioativos. (Fonte: calculator.net)

De posse desses fatos, adquirimos uma noção satisfatória da cinética radioativa.

  • Modalidades de decaimentos radioativos

Um nuclídeo instável - isto é, um nuclídeo localizado fora do cinturão de estabilidade estudado na aula 1 - poderá sofrer diversas formas de decaimento radioativo. O decaimento que efetivamente ocorre é aquele que conduz à formação de nuclídeos mais estáveis - seja aproximando a razão \dfrac{n}{p} de 1, seja tornando n ou p um número mágico.

Seguem algumas das várias formas de decaimento radioativo observadas em núcleos de alta energia.

  1. Decaimento \gamma. Na ocorrência desta modalidade de decaimento, emite-se a espécie \gamma^0_0, que virtualmente tem carga e massa nulas - embora esse não seja um fato absoluto, vide o Princípio da Dualidade, que garante que a espécie gama apresenta certo caráter de onda e certo caráter de partícula.
    Em decorrência de tais propriedades, a capacidade de penetração da radiação gama é muito grande - já que ela "não tem massa" -, enquanto seu poder ionizante é ínfimo - já que ela não tem carga. Consequência disso é que a radiação \gamma atravessa facilmente a pele humana, mas, em relação a outras formas de radiação, gera poucos transtornos no organismo exposto à sua emissão - ionizando as biomoléculas do corpo humano de maneira moderada. (Figura 2 )
  2. Decaimento \alpha. Quando um nuclídeo sofre decaimento alfa, emite-se a espécie \alpha^4_2, que, conforme a notação indica, é equivalente a um núcleo de Hélio 4, composto por 2 prótons e 2 nêutrons. Perceba que \alpha^4_2 ou He^4_2 é um nuclídeo "duplamente mágico", pois n e p são ambos iguais a um número mágico, 2.}
    O decaimento alfa, embora favorecido pela estabilidade de \alpha^4_2, demanda a compensação de muitas forças nucleares atrativas e, por isso, costuma ocorrer em nuclídeos muito massivos: o Urânio, por exemplo, é um emissor alfa, e foi a emissão de partículas alfa que Henri Becquerel observou ao verificar que determinado sal de uranila impressionava o filme fotográfico - ver Aula Zero deste curso. Plutônio, Netúnio e os demais elementos transurânicos de um modo geral também são exemplos representativos de emissores de radiação \alpha.
    Em relação a outras formas de radiação, a partícula alfa é bastante massiva - número de núcleons igual a 4 - e tem carga elevada - igual a +2e por núcleo -, o que explica duas de suas propriedades: a grande dificuldade de penetração e o elevadíssimo poder ionizante. Observe que, em decorrência dessas propriedades, a espécie \alpha^4_2 é capaz de provocar sérios danos ao organismo humano via ionização de biomoléculas, embora só possa penetrar o corpo humano através de orifícios desprotegidos.
  3. Decaimento \beta. Nesta modalidade de decaimento radioativo, a partícula emitida, \beta^0_{-1}, é um elétron. O número atômico do nuclídeo emissor aumenta em 1 unidade, com seu número de núcleons mantido constante - veja, na figura 3, o exemplo do decaimento de C^{14} a N^{14}.
    Em decaimentos beta, ocorre a divisão de um nêutron do nuclídeo em um próton e um elétron. Então, este é emitido pelo núcleo-pai, enquanto aquele, imóvel, permanece nele - daí o aumento do número atômico em 1 unidade.
    Observação: após um decaimento beta, n_f = n_i -1 e p_f = p_i +1. Daí, como o fenômeno envolve a diminuição da razão \dfrac{n}{p}, essa forma de decaimento é preferida por átomos de número atômico pequeno com excesso de nêutrons, como o próprio C^{14}.

Figura 2 (Fonte: este site)
Figura 3 (Fonte: website Cyberphysics)

Atente, agora, para um nuclídeo radioativo F^{18}. Como o isótopo mais estável de Flúor é F^{19}, deduz-se que esse nuclídeo é instabilizado por falta de nêutrons e, por isso, decairá para aumentar o valor de sua razão \dfrac{n}{p}.
Ocorre que, para um átomo pequeno e leve como o Flúor, a emissão alfa faz-se inviável. Como, então, decaem nuclídeos que não sejam muito pesados com razão \dfrac{n}{p} pequena?

Existem duas opções plausíveis de decaimento radioativo nesse caso. Clique na caixa abaixo para ler a respeito.

Emissão de pósitrons e captura de elétron K

Emissão de pósitrons
Em analogia aos elétrons que conhecemos, pósitrons são partículas de antimatéria, as quais apresentam massa idêntica à dos elétrons e carga de sinal oposto. Em um processo de emissão de pósitrons, um próton é convertido em um nêutron e um pósitron, sendo este emitido pelo nuclídeo radioativo: dessa forma, observe, o efeito do decaimento por emissão de pósitrons é o oposto do efeito do decaimento \beta.

F_9^{18} \longrightarrow O^{18}_8 + \beta^0_{+1}

Captura de elétron K
Outro fenômeno plausível nas referidas circunstâncias é a captura de um elétron da camada K, mais interna, da eletrosfera, por parte do núcleo atômico, onde a partícula negativa combina-se com um próton para produzir um nêutron. Observe o fato de que a captura de 1 elétron K e a emissão de 1 pósitron geram o mesmo efeito sobre o nuclídeo-pai, o que torna ambos os fenômenos favoráveis para nuclídeos com escassez de nêutrons.

É relevante manter em mente, porém, que emissão de pósitrons e captura de elétron K são, essencialmente, fenômenos diferentes, e os nuclídeos sob estudo terão preferências distintas entre os dois processos a depender de suas propriedades.

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