Aula de Ivna Gomes
- pH de soluções de ácidos polipróticos
Até agora vimos como calcular o pH de soluções de ácidos monopróticos, tanto fracos quanto fortes. Mas existem vários exemplos de ácidos com mais de 1 hidrogênio ionizável, como o
e o
. Esses ácidos sofrem hidrólises consecutivas até perder todos os seus hidrogênios ionizáveis. À cada ionização parcial está associado um Ka, que vai de Ka1 até Kan, em que n é o número total de hidrogênios ionizáveis.
Vamos analisar as ionizações do ácido fosfórico em água:
Os prótons são doados pelo ácido poliprótico e a constante de acidez decresce sucessivamente, em geral por um fator de
. O ácido sulfúrico é o único ácido poliprótico comum para o qual a primeira desprotonação é completa e a segunda ionização aumenta significativamente a
.
Com exceção do ácido sulfúrico, para calcular o pH de uma solução, levamos em conta apenas a primeira ionização. Em geral, essa aproximação é feita quando o Ka1 é cerca de 1000 vezes maior que o Ka2, e as mudanças de pH devidas às ionizações subsequentes são desprezíveis.
–Exemplo 1: Calcule o pH de uma solução de ácido sulfúrico 0,01 M. (pKa2=1,96)
Como na primeira ionização o
é forte, temos:
(concentração de
da primeira ionização)
A base conjugada, o bissulfato, também contribui expressivamente para o pH. Esta sofre hidrólise ácida como segue:

Para encontrar a contribuição da segunda ionização, precisamos montar uma tabela de equilíbrio em que as concentrações iniciais são as da primeira desprotonação. Assim, temos:

| início | 0,01 M | — | 0 | 0,01 M |
| variação | -x M | — | +x M | +x M |
| equilíbrio | (0,01-x) M | — | x M | (0,01+x) M |
Substituindo na expressão do Ka, temos:

Precisamos resolver a equação do segundo grau, pois a mudança de concentração não pode ser desprezada. Resolvendo para x, obtemos:

Logo, a concentração de íons hidrônio é:
![[H_{3}O^{+}] = 0,01 + x = 0,014 M](https://i0.wp.com/noic.com.br/wp-content/plugins/latex/cache/tex_8cf66a6f19d89c58b7341b36d8f6a265.gif?ssl=1)
O pH é, portanto:
, o que é menor que o pH=2 que seria obtido apenas pela primeira ionização.
Para soluções de outros ácidos polipróticos, considere só a primeira ionização, de modo análogo ao que vimos na aula passada, sempre tomando cuidado com as aproximações.
2. pH de soluções salinas
O pH de uma solução salina depende da acidez e da basicidade relativas de seus íons. Geralmente, os cátions contribuem para tornar o meio ácido e ânions contribuem para tornar o meio básico.
2.1. Acidez de cátions
- Os cátions conjugados de bases fracas possuem caráter ácido, como o
. - Cátions de metais com alta densidade de carga tornam o meio básico. Isso ocorre pois esses metais podem atuar como ácidos de Lewis, recebendo pares eletrônicos da água. Isso enfraquece as ligações O-H das moléculas de água, que podem acabar se ionizando, fornecendo íons
para o meio.
- Cátions da família 1A, 2A e cátions com carga +1 são ditos inertes. Eles são ácidos de Lewis fracos e seus aquacompostos não atuam como ácidos.
2.2. Basicidade de ânions
- Ânions que são bases conjugadas de ácidos fracos tem comportamento básico, como o fluoreto ou o acetato.
- Ânions de ácidos fortes, como o cloreto ou o iodeto, são bases tão fracas que não influenciam no pH. Esses são ditos inertes.
Observação: Alguns ânions que tem hidrogênio produzem soluções ácidas, como o
ou o
.
2.3. Cálculo do pH das soluções
Nos cálculos de pH, um cátion ácido é tratado como ácido fraco e um ânion básico é tratado como base fraca. Em geral, temos um íon inerte e outro influenciando o pH, como é o caso dos dois próximos exemplos:
-Exemplo 2: Calcule o pH de uma solução 0,15 M de cloreto de amônio. (Dado: Kb da amônia =
) .
Como o íon cloreto tem comportamento inerte e o íons amônio tem comportamento ácido, o pH da solução ddeve ser menor que 7.
Devemos levar em conta a hidrólise ácida o íons amônio. Procedendo com uma tabela estequiométrica, temos:

| início | 0,15 | — | 0 | 0 |
| variação | -x | — | +x | +x |
| equilíbrio | (0,15-x) M | — | x M | x M |
Temos que:

Substituindo as concentrações na expressão do Ka:

Como
,
.
Resolvendo para x, obtemos:
![[H_{3}O^{+}] = 9,2\times10^{-6}](https://i0.wp.com/noic.com.br/wp-content/plugins/latex/cache/tex_6ee070d31076b67d12d36c74ba0f8ed9.gif?ssl=1)
Logo, 
-Treine: Calcule o pH de uma solução 0,15 M de acetato de cálcio. Dado: pKa do ácido acético = 4,74. Resposta: 9,11.
Há casos, porém, que precisamos considerar tanto a hidrólise ácida do cátion, quanto a ácida do ânion, como é o caso do cianeto de amônio. Nesse caso, podemos demonstrar que:
, em que Ka é a constante ácida do
e Kb é a constante básica do
.
Essa equação vale para os casos de ácidos do tipo
, em que o Ka é a constante de ionização do ácido conjugado do ânions
e Kb é a base conjugada do cátion
.
2.4. Cálculo do pH de soluções de sais de ácidos polipróticos.
A base conjugada de um ácido poliprótico é anfiprótica, isto é, pode agir como ácido ou como base. Por exemplo, o carbonato sofre hidrólise ácida e básica, simultaneamente:


O pH de uma solução do tipo é dado por:
, pois o bicarbonato é intermediário entre a primeira e a segunda ionização.
Se tivéssemos, por exemplo, uma solução de
, o pH seria dado por:
, pois o
é intermediário entre a 2° e a 3° ionização.
Se tivéssemos o ânion de um ácido poliprótico totalmente desprotonado, como o sulfato, o pH seria dado pela hidrólise básica desse ânion, tratado como base fraca. O pH seria calculado como já vimos anteriormente.
3. Composição e pH
Considere uma solução de ácido poliprótico com o pH fixo. Podemos encontrar as frações das várias espécies em solução em função da concentração de íons hidrônio e das constantes de ionização. Fazendo isso por meio do gráfico alfa.
Considere uma solução de ácido carbônico de molaridade total M. Temos que a concentração da espécie i é
.
As diferentes frações são dadas por:
O gráfico das concentrações das diferentes especies em solução (carbonato, bicarbonato e ácido carbônico) é da seguinte forma:
Temos que a forma totalmente protonada predomina em
. A espécie anfiprótica predomina em
. A forma totalmente desprotonada predomina em
.
Cálculos semelhantes podem ser feitos para achar as concentrações de ácidos tripróticos em água, como é o caso do ácido fosfórico.
O gráfico das concentrações em função do pH é:
De modo análogo ao anterior, podemos prever em quais faixas de pH cada espécie predomina.
Nesta aula aprendemos a calcular o pH de soluções de ácidos polipróticos e de seus sais, assim como calcular as concentrações de suas diferentes espécies em um pH fixo. Aprendemos como calcular e prever o pH de soluções salinas pela acidez e basicidade relativa de seus íons.






