Escrito por Vinicius Névoa
O poço quadrado infinito e as condições de contorno
O poço quadrado infinito é, muitas vezes, o exemplo que inaugura a apresentação do aparato matemático desenvolvido na parte 1 dessa introdução. Ele é definido pelo seguinte potencial
:
Em palavras, ele é nulo no poço e infinito em todas as suas adjacências. Isso nos permite escrever a equação de Schrödinger independente do tempo para uma partícula de massa
dentro do poço como:

Cujas soluções são da forma:


Você deve ter percebido que faltam informações, não é? Como determinar
? E
? E principalmente o
, afinal de contas o
continua sendo uma constante desconhecida. Eis que entram as condições de contorno:
- A função de onda é sempre contínua no espaço, ou seja
não possui descontinuidades do tipo salto. - A primeira derivada da função de onda
também é contínua, salvo em casos (artificias) em que
diverge.
A primeira condição se deve ao fato de que, se
fosse descontínua, haveria ambiguidade na probabilidade de achar a partícula na posição
da descontinuidade; como essa probabilidade é mensurável e bem definida, então
deve ser contínua.
A segunda condição é mais sutil, e vem da integração da equação de Schrödinger:

No limite em que
, o lado esquerdo é simplesmente a variação da primeira derivada de
imediatamente antes e imediatamente depois de
:

Veja que sempre que
for finito, como se prova verdade em toda situação real, a integral do lado direito é nula por conta da continuidade de
, implicando o que queríamos mostrar:

Agora vamos retornar da nossa digressão direto para o fundo do poço. Como o potencial fora do poço é infinito, a função de onda nessas regiões é nula. Logo, a primeira condição nos diz que
. Lembre-se que:


A primeira igualdade rende que
e a segunda rende algo muito significativo:

Vamos por em palavras o que acabou de acontecer: as condições de contorno da função de onda obrigaram a energia do sistema a ser quantizada! Cada número natural
rende um nível de energia para a partícula. Agora vamos tratar do fator
: ele vem na normalização da função de onda, de modo que a probabilidade total de achar a partícula no poço seja 1.
.
Agora, note que achamos uma solução para cada nível de energia
, e, como dissemos no artigo anterior, a solução geral é uma combinação linear da seguinte família de funções de onda:

Vamos ilustrar um exemplo. Suponha que, no instante inicial, valha que
. Já forneci a expressão normalizada, por isso o fator numérico. Note que essa função de onda é nulo no início e no final do poço, como deveria. Qual a probabilidade da partícula ser medida em um nível de energia
?
Note que como já normalizamos as funções onda de cada nível de energia, não precisamos mais do denominador na expressão para achar os coeficientes
:
.
.
Resolvendo a integral:
para
par
para
ímpar
Isso significa que a probabilidade da partícula estar no estado fundamental
em qualquer tempo futuro é de cerca de
(Isso é dado por
).

