Aula 1 – Breve história da Geografia Humana

Escrito por Gabriel Volpato Lima

(não tão) Breve história da Geografia Humana

A história da Geografia como ciência começa muito antes de sua constituição como um campo de conhecimento científico. Desde a Grécia Antiga, passando pelos árabes e os viajantes da expansão marítima até as expedições naturalistas nos séculos XVII e XIX, registros foram feitos sobre as formas de organização social e a relação dos grupos com o todo (RAPHAELA; KARINA, 2011).

Essas interações entre diferentes grupos e sociedades resultaram em muitos registros que hoje nos permitem entender a origem das sociedades antigas e sua influência sobre as sociedades modernas. No entanto, os primeiros a escrever sobre as sociedades não foram considerados os primeiros geógrafos, pois não utilizaram o método científico, que só foi desenvolvido mais recentemente.

Foi somente após a Revolução Industrial do século XVIII, com a acumulação de capital, a expansão das potências europeias e a aglomeração urbana, que se tornou necessário criar uma nova ciência para explicar os fenômenos da sociedade. Assim surgiu a ciência positivista com Augusto Comte. Depois que outros pensadores importantes se engajaram nessa nova ciência, ela foi sistematizada e tornada científica.

No entanto, a Geografia surgiu como uma área de conhecimento científico em países como a Alemanha para atender ao caráter ideológico da ciência engendrada pelo capitalismo e se adequar às necessidades de expansão dos países centrais (europeus) para os países periféricos (colônias).

A utilização da geografia como instrumento de conquista colonial não foi uma orientação isolada, particular a um país. Em todos os países colonizadores, houve geógrafos empenhados nessa tarefa, readaptada segundo as condições e renovada sob novos artifícios cada vez que a marcha da História conhecia uma inflexão […] noções de determinismo, de região, de gênero de vida, de áreas  culturais, aparentemente inocentes e disparatas seguem todas na mesma direção. (SANTOS, 2002, p. 31).

Nesse momento, a Geografia é classificada como Geografia clássica, fortemente inspirada pelas ciências naturais em ascensão e pautada nas características do positivismo. Isso resultou na redução da Geografia enquanto ciência a compreender a realidade por meio de descrições do visível, à enumeração e classificação como método de investigação e análise de seu principal objeto de estudo: o espaço (RAPHAELA; KARINA, 2011).

Desde os estudos naturalistas até a primeira metade do século XX, as “escolas nacionais” defenderam várias concepções de ciência geográfica, com destaque para a escola alemã e a escola francesa. O cenário foi estabelecido para a criação da escola alemã em meados do século XIX, caracterizada pelos estudos naturalistas como método, a necessidade de unificação e expansão do Estado alemão e o surgimento do capitalismo alemão.

Dois intelectuais prussianos, Alexandre Von Humboldt (1769-1859), um naturalista ligado à aristocracia prussiana, e Karl Ritter (1779-1859), um estudioso da antropologia e tutor de uma família de banqueiros, tiveram contribuições fundamentais para a institucionalização da Geografia como ciência. Ambos foram influenciados pela “epistemologia geográfica” deixada pelo filósofo Kant (1724-1804), que ensinou “geografia física” na Universidade de Koenigsberg por 40 anos. O legado de Kant ajudou a consolidar a noção de conhecimento empírico, de síntese espacial, bem como as noções kantianas de espaço e tempo.

Frederic Ratzel (1844-1904), um discípulo de Ritter, desempenhou um papel crucial tanto na garantia da expansão do recém-formado estado alemão quanto na afirmação do “determinismo” da escola alemã.  Frederic Ratzel, em sua obra “Antropogeografia” (1882), defendeu que o ambiente influencia o homem, sua estrutura e comportamento social. Em “Geografia Política” (1897), ele admitiu que a trajetória política de cada estado depende de sua posição geográfica. Os estudos da escola “determinista” alemã viam o homem como mais um elemento entre outros que compõem o espaço, como o solo, a vegetação, os rios, etc. Essa visão ampla não permitia o uso de um método próprio nem uma análise que pudesse generalizar, um dos pilares da ciência moderna.

Elisée Reclus, um comunista libertário francês contemporâneo a Ratzel, também expressou suas preocupações sobre o papel do homem e da sociedade em relação ao meio ambiente. Em suas principais obras, “A Nova Geografia Universal” (1892) e “O Homem e a Terra” (1905), ele procurou demonstrar as relações entre sociedade e natureza, considerando o espaço no primeiro livro e o tempo no segundo. Sua frase mais conhecida é: “A Geografia é a história do espaço enquanto a História é a geografia do tempo”. No entanto, suas ideias foram marginalizadas devido à exclusividade dada à obra de Paul Vidal de La Blache (1845-1918).

Foi com La Blache e a introdução dos estudos regionais que a “escola francesa” no início do século XX destacou o homem e suas ações sobre o meio ambiente. Mais do que apenas um elemento no grande teatro que agora se torna espaço geográfico, o homem ganha o status de protagonista.

Paul Vidal de La Blache

A ideologia de Paul Vidal de La Blache, conhecida como lablachiana, foi moldada pelo contexto social, político e econômico da França após a Revolução Francesa de 1789. A burguesia assumiu o controle do governo e governou de acordo com seus interesses. No entanto, a ascensão de Napoleão Bonaparte consolidou o desenvolvimento capitalista na França, acabando com a instabilidade política. A Revolução Francesa eliminou os vestígios feudais e intensificou a luta de classes, culminando na perda do poder dominante da burguesia francesa após a onda revolucionária de 1848.

A derrota da França na guerra franco-prussiana de 1870, que resultou na perda das ricas províncias minerais de Alsácia e Lorena para a Alemanha, marcou o início de uma disputa hegemônica entre os dois países. Isso se intensificou após a unificação alemã em 1871. A divergência entre os dois países se refletiu na geografia, com a França sentindo a necessidade de ensinar essa disciplina aos seus estudantes, já que o centro de discussão geográfica estava na Alemanha antes da guerra.

Paul Vidal de La Blache (1845-1918) foi então, um geógrafo francês que se destacou por suas contribuições significativas para a ciência geográfica. Ele é lembrado como o fundador do Possibilismo, uma corrente de pensamento que se opõe ao Determinismo Geográfico alemão. A teoria lablachiana não serviu apenas para fins escusos, mas também contribuiu para o desenvolvimento da ciência geográfica. Ela superou o determinismo alemão e flertou com as ciências sociais, história e etnografia. Ao contrário de Humboldt, que dava maior importância ao meio natural em suas análises, e de Ritter, que priorizava o homem, Vidal de La Blache propôs uma concepção de totalidade através do possibilismo. Isso significa que, embora o homem influencie diretamente a transformação do meio, ele depende do desenvolvimento de condições técnicas e de capital para tal apropriação.

Segundo Vidal, a terra não determina o comportamento do homem. Apenas oferece-lhe oportunidades: o homem é quem faz a escolha […]. Como Vidal, ao rejeitar o determinismo ambientalista, falasse frequentemente de possibilidades ambientais, seu ponto de vista foi cognominado de possibilismo. Mas Vidal não queria dizer que o homem é um agente livre para quem tudo é possível. Ele reconheceu plenamente que a escolha do homem é severamente limitada pelo sistema de valores de sua sociedade, sua organização, tecnologia, em suma, pelo que Vidal chamava genere de vie (modo de vida) do homem. (BROEK apud SODRÉ, 1976, p. 91).

Imperialismo Francês

Essa é a questão primordial da geografia lablacheana: o embate entre os imperialismos franceses e alemães. Paul Vidal de La Blache tem por objetivo atacar o expansionismo alemão e, ao mesmo tempo, justificar o imperialismo francês.

“O possibilismo que, francês em sua origem, opõe-se ao determinismo ambiental germânico. Essa oposição fundamenta-se nas diferenças entre os dois países” (CORRÊA, 2002, P.11-12).

Vidal mostrou como as paisagens de uma região são o resultado das superposições, ao longo da história, das influências humanas e dos dados naturais. As paisagens que ele esmuiça e analisa são essencialmente uma herança histórica. Por causa disso, Vidal de La Blache combate com vigor a tese ‘determinista’, segundo a qual os ‘dados naturais’ (ou um dentre eles) exercem uma influência direta e determinante sobre os ‘fatos humanos’ e ela dá um papel importante à história para captar as relações entre os homens e os fatos físicos. (1988, p.107)

Para se opor ao expansionismo alemão, Vidal de La Blache expressou suas críticas. Inicialmente, Vidal questionou os discursos de Ratzel, que estavam saturados de políticas. Essa foi a natureza de sua crítica.

Incindia no fato de as teses ratzelianas tratarem abertamente de questões políticas. Vidal, vestindo uma capa de  objetividade, condenou a vinculação entre o pensamento geográfico e a defesa de interesses políticos imediatos […] Isto não quer dizer, como será visto a seguir, que a geografia vidalina não veiculasse uma legitimação ideológica dos interesses franceses (MORAES, 2002, p.65)

A segunda crítica de Vidal às formulações de Ratzel foi, segundo Moraes (2002), que o homem fora posto como elemento passivo diante do meio. Contudo, apesar de dar mais ênfase ao ser humano em seus estudos, Vidal de La Blache manteve um caráter naturalista, pois afirmou “que o estudo da Geografia era o estudo dos lugares e não dos homens” (SODRÉ, 1976, p.90).

É importante enfatizar que a compreensão da geografia de La Blache é crucial para entender a evolução do pensamento geográfico, desde a sistematização da geografia até os dias atuais. Embora seja considerada obsoleta, a geografia de Vidal ainda tem grande valor no meio acadêmico e frequentemente gera debates intensos. Além disso, sua importância pode ser destacada ao considerar que todo novo conhecimento é construído a partir de um conhecimento pré-existente.

Finalizando as reflexões sobre o pensamento de La Blache, ele próprio destaca o papel do geógrafo e da ciência geográfica, vendo a Geografia como uma disciplina interdisciplinar: “Se quisermos adotar a perspectiva de um geógrafo, ou seja, analisar os fatos como um geógrafo, estaremos lidando com fatores de várias ordens, de origens diversas, formando entre si múltiplas combinações” (La Blache, 1985. p.43). A pesquisa mostra que tanto a geografia francesa quanto a alemã tiveram grande importância para o conhecimento científico, apesar das disputas entre as duas escolas. É evidente que a geografia de Vidal tem sido e continua sendo uma base sólida para o desenvolvimento dos estudos geográficos.

A Geografia passou por uma grande transformação entre as décadas de 50 e 70, quando foi fortemente influenciada pela escola quantitativa americana. Esta abordagem enfatizava a análise estatística do espaço, mas era limitada em sua contribuição para as análises humanas do espaço. O livro do geógrafo francês Yves Lacoste, “Geografia: isso serve em primeiro lugar para fazer a guerra”, exemplifica a insatisfação com essa abordagem.

No entanto, a partir da década de 70, com o surgimento de movimentos de contracultura e mudanças socioeconômicas globais, houve uma mudança de paradigma nos estudos geográficos. A Geografia Crítica surgiu, influenciada pelo “materialismo histórico dialético” de Marx, permitindo a inclusão de métodos de pesquisa das áreas sociais, econômicas e políticas. Isso resultou no desenvolvimento de subcampos como a Geografia econômica, cultural, política e humanística.

Este período foi extremamente produtivo para a Geografia, com uma série de autores e obras publicadas em diversos países, como França, Inglaterra e Brasil, que contribuíram para o fortalecimento da ciência geográfica e suas bases epistemológicas. Entre essas obras, destacam-se “A Geografia Ativa” de Pierre George, “A Justiça Social e a Cidade” de David Harvey, “A Revolução Urbana” de Henry Lefebvre, “Topofilia” de Y-Fu Tuan e “A Geografia da Fome” de Josué de Castro.

No Brasil, Milton Santos ganhou destaque no cenário acadêmico mundial com sua obra “Por uma Geografia Nova”, que contribuiu para a renovação crítica da Geografia. Santos também foi precursor dos estudos e criação de conceitos sobre a globalização. Outros intelectuais brasileiros, como Carlos Walter Porto Gonçalves e Ruy Moreira, também contribuíram para as discussões sobre a Geografia inseridas no viés crítico. Assim, a Geografia foi consolidada como uma ciência social.