Escrito por William Kotsubo e William Costa
Pode ser um tanto intimidadora a busca por uma teoria. Afinal, os problemas da IYPT geralmente não têm uma solução consolidada, cabendo a você criar suas próprias hipóteses sobre o fenômeno estudado. De fato, o grande diferencial da IYPT para as demais olimpíadas de física é a pesquisa profunda sobre alguns problemas, buscando uma explicação física de como ele se desenvolve.
Para contextualização, os problemas da IYPT consistem de uma coletânea dos mais diversos tópicos da Física, indo muito além do mundo olímpico estudado a nível do ensino médio. Embora possa ajudar, não é necessária experiência prévia com as matérias da OBF para se tornar um bom IYPTista! Também é importante ressaltar que é simplesmente impossível se especializar em tudo. Por via de regra, nenhum membro da equipe deveria se encarregar de mais que dois problemas, puramente pela complexidade dos assuntos! Não basta entender por cima, deve se investigar profundamente os mecanismos por trás da ocorrência do fenômeno para, então, realizar previsões sobre os resultados experimentais.
Esse trabalho de compreensão e previsão do fenômeno engloba a teoria, e sobre ela que vamos tratar aqui.
O objetivo deste guia é fornecer uma noção geral sobre os passos necessários para desenvolver seu entendimento físico do problema, as características de uma boa teoria nas diferentes fases da IYPT, bem como mostrar exemplos práticos para servirem como base para a sua pesquisa.
Considerações gerais
Embora no ensino médio tenhamos a impressão de que a física é sobre fazer contas e obter resultados numéricos, esse não é o caso na IYPT. Uma boa teoria consiste de dois componentes, o primeiro sendo sua abordagem qualitativa, e o segundo, sua abordagem quantitativa.
A abordagem qualitativa consiste em uma análise dos fatores que atuam sobre o fenômeno, estabelecendo relações entre os conceitos relevantes sem necessariamente quantificá-las. De forma mais concreta, aqui que se explica intuitivamente como ocorre o fenômeno e se relaciona como a mudança dos parâmetros relevantes ocasiona na alteração do fenômeno.
Por outro lado, a abordagem quantitativa busca resumir toda a discussão feita na abordagem qualitativa na forma de um resultado numérico que relaciona todos os parâmetros relevantes. Dependendo do problema e do modelo adotado, esse resultado pode tomar uma variedade de significados. Podemos, por exemplo, simular o movimento de um objeto, verificar se há ou não ocorrência do fenômeno, prever/descrever o comportamento de um fluido… Enfim, realizar uma série de observações que contribuem para o cumprimento do enunciado.
Perceba que a teoria deve ser uma mistura dos dois, com raras exceções. Uma teoria sem abordagem qualitativa carece de uma intuição de por que o fenômeno acontece, e uma sem abordagem quantitativa dificulta a comparação teórica-experimental. Entretanto, repare que não há uma única abordagem certa ou errada, e os problemas são propositalmente amplos nesse quesito. O que é importante é prestar atenção nas palavras-chave do enunciado para garantir que sua teoria se encaixe dentro do que é pedido.
Agora, vale constar as limitações de um modelo teórico. Albert Einstein colocou de forma sucinta: “Na medida em que as leis da matemática se referem à realidade, elas não são certas, e, na medida em que são certas, elas não se referem à realidade.” As leis da física são aproximações da realidade, e nossos modelos podem trabalhar em cima de várias suposições, sendo por isso que uma discussão sobre suas limitações teóricas deve ser realizada para entender não só as circumstâncias em que ela se aplica ao mundo real, mas também para explicar possíveis desvios entre a teoria e os experimentos.
Essa análise também nos permite avaliar os méritos de modelos diferentes. É possível que uma variedade de modelos possam descrever o fenômeno, mas as condições no seu laboratório (materiais disponíveis, aparelhos disponíveis, custo, espaço, tempo, etc) favoreçam mais uma forma de analisar o problema sobre outra. Afinal, o que vale um modelo perfeito que não possa ser comparado com os experimentos? A comparação entre tese e prática é o coração da física experimental!
Por fim, vale ressaltar que, durante a IYPT, nem sempre é possível contar com o apoio de professores, especialmente durante a pesquisa teórica. A procura é com vocês, alunos!
Em geral, o papel dos professores é de fornecer um assunto ou tópico para investigar, ou de esclarecer certas questões, mas a pesquisa é realizada pelos alunos. Não tenha vergonha de perguntar, independente do que for! Se alguma coisa não estiver clara, é bem provável que ela voltará para te assombrar, seja na pesquisa, ou, pior ainda, como pergunta num fight! Seria ainda melhor se você pudesse consultar um professor com frequência para verificar seu entendimento do tema. Pode até ser que ele não domine o assunto, mas o importante é que ele te questione de todos os ângulos possíveis para ter certeza de que você o entende.
Inclusive, um bom exercício para se fazer é de revisar várias e várias vezes para verificar se todas as condições de contorno estão sendo respeitadas (isto é, se os experimentos são realizados dentro das restrições teóricas) e se não há erros de dimensão em seus cálculos. Uma forma de driblar possíveis erros é pedindo opiniões de várias pessoas diferentes sobre seu trabalho; entretanto, é comum um errinho bobo passar despercebido e, quanto mais perto do Torneio Nacional esse problema for encontrado, mais dor de cabeça ele pode causar.
Como procurar uma teoria
As nossas sugestões de como procurar uma teoria dependem de se o fenômeno faz parte de um campo consolidado ou não. Se parecer muito abstrato, fornecemos alguns exemplos concretos na parte de “Construção do modelo teórico”!
Problemas bem desenvolvidos
Problemas que abordam assuntos já bem desenvolvidos geralmente têm livros que ajudam muito a entender o tópico. Podemos citar como exemplo o P9 de 2025 (Assistência Magnética), que se relaciona a um campo bem conhecido (eletrodinâmica) e que boa parte da teoria, tanto qualitativa quanto quantitativa, pode ser encontrada no Griffiths (Introduction to Electrodynamics).
Claro que, mesmo nessas situações, a literatura científica pode ser de grande ajuda, proporcionando modelos que auxiliam no desenvolvimento do problema, como é o caso das simulações. Mas o grande valor dos livros está na didática deles: a estrutura e a qualidade dos materiais são especialmente importantes para entender o campo em questão, te preparando melhor para discuti-lo nos fights.
Problemas complexos
Problemas mais complexos geralmente não têm uma literatura/livros que agregam bem o conhecimento a respeito do tópico. Assim, pode ser que ou seja necessário criar seu próprio modelo ou, então, pesquisar e combinar conhecimentos agregados de diversos recursos. Por isso, a pesquisa geralmente apresenta uma série de dificuldades ao longo do processo.
Pode ser que você encontre uma suposição que não seja verdadeira para o seu experimento, ou um coeficiente que você não consiga calcular, ou uma referência que você não consegue achar, ou tenha que ler a parte de um livro avançado… Enfim, a ideia é que não é o fim do mundo se você tiver que recomeçar, e que essa não-linearidade do processo é mais a regra do que exceção. O importante é que você se mantenha crítico a cada passo, e consiga tomar a decisão de desistir de um caminho se for necessário. Esse trabalho pode tomar vários meses, então não se preocupe em fazer progresso rápido!
- Um bom ponto para começar é procurando por materiais que tratam do fenômeno em questão, sejam eles videos, sites, ou, em especial, artigos científicos. Essa investigação preliminar fornecerá uma ideia geral de quais são os tópicos e os mecanismos relevantes para estudo. A próxima seção apresenta exemplos de materiais para os campos relevantes da IYPT.
- Então, devemos nos aprofundar nos assuntos relevantes, começando entendendo eles. Esse aprendizado deve ser mais estruturado e, para isso, sugerimos livros ou videoaulas. Por exemplo, no estudo do som, devemos concretizar conceitos-chave, como: O que é frequência? Timbre? Intensidade? O que é uma onda mecânica x eletromagnética? Note que a profundidade e os tópicos a serem investigados dependem do problema, e pode não ser claro do começo o que é relevante.
- Depois de consolidadas essas ideias, sugiro uma nova leitura dos artigos científicos. Deverá entender melhor os conceitos abordados, ao menos superficialmente, sendo que a ideia é procurar abordagens quantitativas do fenômeno. Nós do NOIC sabemos o quão frustrante e, por vezes, contraprodutivo pode ser a leitura de artigos, e por isso dedicamos um guia separado para ajudar nesse processo.
- Finalmente, com uma teoria selecionada, resta usá-la para obter os resultados desejados que descrevem o fenômeno e compará-los com os resultados experimentais (comparação teórica-experimental). Nessa última etapa, deve-se sucessivamente comparar os dois para analisar como melhorar o seu modelo teórico, adaptando-o com base nos seus experimentos.
Diferentes abordagens de modelagem
Para certos problemas, pode ser adequado construir seu próprio modelo, ou então se apropriar e adaptar os modelos da literatura para seus próprios fins. Para esses casos, gostaríamos de ressaltar que há abordagens diferentes para alcançar os mesmos resultados, que podem ou não ser mais fáceis de analisar.
Para localizar um ponto num plano ou no espaço, podemos utilizar diferentes sistemas de coordenadas, tais como coordenadas cartesianas, coordenadas polares, coordenadas parabólicas, coordenadas esféricas, coordenadas cilíndricas… Cada qual utilizados para certos problemas e situações. As coordenadas polares, por exemplo, são boas para descrever movimentos circulares, tal como em um pêndulo.
Também podemos citar o movimento de um objeto, que pode ser modelado por uma abordagem de forças (newtoniana) ou energia (lagrangeana ou hamiltoniana). Novamente, cada problema pode ser trabalhado de ambas as formas, mas elas podem diferir na facilidade da análise. Certos problemas poderão ser mais fáceis de modelar usando forças e acelerações, outros podem ser melhor modelados por energia, enquanto outros ainda podem ser indiferentes.
Fundamentação teórica para os problemas
Pode ser um pouco difícil encontrar materiais para estudar os diferentes campos da física, então dedicamos essa seção para isso. Como falamos anteriormente, não é necessário ter contato prévio com competições de física para participar da IYPT, mas tenha em mente que a maioria dos artigos que você irá ler exigem alguns conhecimentos prévios a respeito do assunto abordado, especialmente aqueles com uma matemática bem complicada. Mas não se preocupe muito, já que há bastante tempo entre o lançamento dos problemas e o prazo para envio de relatórios e vídeos na 1ª fase, o que permite construir aos poucos as ideias para produzir uma boa teoria.
Pensando nisso, nós vamos citar a seguir algumas das principais referências para os temas frequentemente cobrados na competição. Novamente, você não deve ler esses livros por inteiro, mas apenas algumas partes que mais lhe sejam úteis para obter um entendimento qualitativo e quantitativo razoável dos fenômenos trazidos pelos problemas antes de partir para a leitura de livros e artigos mais específicos.
Estática e Energia
- Mechanics of Materials – Ferdinand P. Beer, E. Russell Johnston. Este livro mostra a equação de Euler-Bernoulli, que era a principal forma de atacar o P7 de 2025 (Canhão de régua), além de várias outras situações úteis.
- Engineering Mechanics: Statics – J.L. Meriam & L.G. Kraige. Mais um livro importante, trazendo tópicos úteis como o momento fletor, forças em vigas e equações de energia.
Fluidos e Calor
- Mecânica dos Fluidos – Franco Brunetti.
- Fluid Mechanics – Frank M. White. Aqui temos um ótimo livro, que é completo e dá bons fundamentos qualitativos para problemas como o P6 de 2025 (Bomda de Wirtz) e o P11 de 2024 (Bomba de Canudo), por apresentar conceitos-chave como fluxo laminar ou turbulento e equações de transporte.
- Heat and Mass Transfer – Yunus A. Çengel. Traz equações de transporte essenciais para qualquer problema em que é necessário trabalhar com calor.
Quântica
- Fundamentals of Physics Vol. 4: Optics and Modern Physics – Halliday, D., Resnick, R., & Walker, J. Introdutório, mas te trará bagagem essencial sobre física moderna.
- Introduction to Quantum Mechanics- Griffiths, David J. Esse é um livro com matemática mais avançada especialmente pelas notações utilizadas, e pode ser bem importante para seu modelo quantitativo.
- Quantum Physics of Atoms, Molecules, Solids, Nuclei, and Particles – Eisberg & Resnick. Traz muitos exemplos e também explicações de fenômenos como o efeito Zeeman, que apareceu no P17 de 2025 (Digital Quântica).
Ondulatória e Acústica
- Fundamentals of Acoustics – Kinsler, Frey, Coppens & Sanders. Pode ser um pouco desfocado, procure os capítulos mais relevantes para o seu problema.
- Theoretical Acoustics – Morse & Ingard. Livro mais avançado, mas traz o caso da bacia ressonante que foi aborda no P15 de 2025 (Tigela Uivante).
Estatística
Esse é um tema pouco recorrente, mas que apareceu no P1 de 2025 (Invente você mesmo) e no P7 de 2022 (Dado de três lados) como o caminho mais intuitivo para atacar os problemas.
- Introdução à Física Estatística – Salinas, Silvio R. A. Apresenta uma parte mais técnica sobre estatística, mas os últimos capítulos são bem interessantes por trazerem aplicações a problemas.
- Concepts in Thermal Physics – Blundell, Stephen J., and Katherine M. Blundell. Esse é um livro muito querido por vários estudantes de física, especialmente por trazer várias aplicações e nos seus capítulos finais traz alguns temas diversificados e extremamente úteis na IYPT.
Há outros temas importantes que podem ser aplicados aos problemas, como a física de plasmas e a histerese, bem como campos secundários que podem ajudar a entender o problema, como o caos, que também precisam de materiais mais específicos. Nesse quesito, um dos campos gerais mais recorrentes na física é o cálculo diferencial e integral.
De maneira breve, a maioria das equações são formuladas de acordo com as regras do cálculo e, por isso, é necessário entender ao menos superficialmente o significado físico de derivadas e integrais. Há diversos recursos ótimos e gratuitos para seu aprendizado, mas gostaríamos de sugerir o curso do 3Blue1Brown para construir uma intuição física e visual por trás do cálculo. Não achamos necessário entrar nos detalhes matemáticos de derivação e integração, mas pode ser útil para alguns problemas.
Construção do modelo teórico
Agora vamos para a parte mais divertida: chegou a hora de colocarmos a mão na massa! Para isso, vou trazer alguns exemplos bem práticos e alguns detalhes normalmente desconhecidos por diversos estudantes que têm um primeiro contato com o torneio. É bom frisar que essa não é uma “receita de bolo”, é apenas uma forma de guiar aqueles com certa dificuldade em começar o seu projeto e até mesmo que travam enquanto escrevem seu relatório.
Escrevendo suas equações
Para começar a escrever suas equações (muitas vezes complexas), o ideal é que pouco a pouco você vá construindo seu raciocínio para obter resultados, junto da condição de contorno de cada termo, bem como as aproximações feitas. Isso é importante para que o corretor ou jurado consiga entender a forma como você trabalhou o problema.
Exemplificando, vou usar o P12 de 2025 (Som contra Fogo), cujo enunciado segue logo abaixo:
“Uma pequena chama pode ser extinta pelo som. Investigue os parâmetros da chama e as características do som que determinam se a chama será extinta.“
Antes de tudo, deve ser feita uma análise prévia. As partes destacadas merecem bastante atenção pois irão determinar ao final de tudo se o enunciado foi respondido e quase sempre são o foco dos jurados, já que isso está diretamente relacionado com a grade de avaliação do torneio. Tenha sempre o cuidado de verificar se o que está sendo feito permanece dentro da proposta — muitos estudantes ainda perdem pontos preciosos com isso, o que definitivamente não pode acontecer. Vamos à análise dos termos:
- Pequena chama: Esse fato é importante para facilitar sua vida, com possibilidades de aproximação, permitindo que você considere a chama como laminar (desconsiderando efeitos de turbulência).
- Investigue os parâmetros: Aqui diz respeito aos fatores relevantes para estudo. Nesse caso, poderíamos citar as propriedades do combustível em si, do som, e as condições ambientes. Isso expande algumas fronteiras relacionadas a sua pesquisa, já que vários fatores podem influenciar no fenômeno, e cabe a você procurar incessantemente em artigos quais são relevantes e como eles afetam o problema.
- … determinam se a chama será extinta: Aqui temos explícito que deve-se chegar a uma condição matemática, ou pelo menos qualitativa que dita se a chama apagará ou não.
Feito isso, mostrarei aqui um pouco do meu raciocínio e da minha lógica ao trabalhar nesse problema. A intuição que eu tive foi a de que as ondas sonoras vindas de uma fonte geram diferenças de pressão (já que essa é uma das características desse tipo de onda) e também de densidade ao redor da chama, então é natural trabalhar com a função de amplitude dessa onda:

E a partir disso podemos calcular uma relação de diferença de densidade e de pressão no entorno da chama:


Sendo
o módulo de Bulk. Outra ideia foi a de trabalhar com a média quadrática dessas duas relações, veja que temos funções senoidais, e experimentalmente foi possível constatar que a chama oscilava muito em relação a sua posição de equilíbrio vertical quando era estimulada pelo som. Logo:


Nesse momento, abro um pequeno espaço para comentar sobre uma falha que cometi ao trabalhar com o P12. Com essa abordagem em mente, tentamos encontrar um ângulo médio de inclinação da chama em relação à vertical por meio das velocidades vertical (devido à ejeção de partículas pela combustão) e horizontal (devido à fonte sonora) e apresentar tendências para que a chama apagasse quando esse ângulo se aproximasse de
. Isso foi um erro, já que o ângulo não determinava se a chama realmente apagava, e isso me fez perder alguns pontos. Por isso, tive que mudar minha abordagem para utilizar o calor, já que ele se relaciona diretamente com o apagamento ou não da vela:

Uma equação um tanto complexa à primeira vista, mas pudemos realizar algumas simplificações. Desconsideramos, por exemplo, o efeito difusivo da chama, e assim chegamos a uma equação que descreve o calor que o sistema absorve por unidade de tempo. Após isso, pensei que para que a chama pudesse apagar seria necessário que a quantidade de calor absorvido pelo sistema se igualasse à quantidade de calor perdido, e a partir disso conseguimos uma equação que determina as condições para extinção da chama.
Compreendo que muitos termos não foram bem explicados e há várias incógnitas, mas meu intuito aqui foi mostrar para você, caro leitor, como ocorre a construção de uma teoria, que é um processo gradual, apresentando reviravoltas que podem ocorrer enquanto a escreve, que são normais, além de exemplificar a construção de ideias ao longo de várias e várias pesquisas. Ah, e não se esqueça que essa foi a forma que eu achei mais confortável de abordar o temido P12, mas esse problema poderia também ter sido abordado por física de plasmas, encontrando uma forma de expressar a densidade no interior da chama por exemplo, ou então encontrando alguma condição de velocidade das partículas do ar e da própria chama para que as reações de combustão fossem limitadas, mas lembre-se que o mais importante além do sentido físico de tantos termos e equações é que você goste do que está produzindo.
A importância das ilustrações
Agora vou falar de algo fundamental e que vai lhe ajudar muito: as queridas ilustrações. Muitos não têm o costume de fazer ilustrações e nem mesmo tem jeito com desenhos, mas na IYPT, boas imagens que representem bem o seu problema e permitam uma melhor visualização dele são indispensáveis.
Uma recomendação de site para construí-las é o Mathcha, e sua vantagem é que equações podem ser escritas em LaTeX junto a imagens. Outra coisa, e não menos importante, é que a imagem deve condizer com o seu setup experimental, já que a sua teoria também levará ele em consideração, então não crie imagens “gerais”, e as traga o mais próximo possível da sua abordagem. Algumas figuras podem ser retiradas de outros materiais desde que sejam devidamente referenciadas, é claro, mas uma autenticidade traz mais confiança e um maior prestígio pro seu trabalho. Tudo isso será tratado com mais cuidado no material sobre como escrever um bom relatório aqui do NOIC.
Trarei como exemplo dessa vez o P7 de 2025 (Canhão de Régua), cujo enunciado era:
“Duas réguas são pressionadas firmemente uma contra a outra. Um projétil redondo (por exemplo, uma tampa de garrafa plástica ou uma bola) é inserido entre elas, próximo a uma das extremidades. Quando uma força extra é aplicada na superfície das réguas, o projétil é ejetado em alta velocidade. Investigue esse efeito e os parâmetros que afetam a velocidade de ejeção”
A principal ideia para ele era utilizar uma prensa no setup e a partir disso construir algumas imagens que permitissem visualizar nossas esperançosas tentativas de descrever tudo.
Veja abaixo como minha equipe tentou representar como o fenômeno acontecia:


Essas imagens mostram a distribuição de forças ao longo da régua, o que poderia ser melhorado acrescentando alguns elementos do setup experimental.
O uso de gráficos e simulações
A construção de gráficos teóricos é um dos pré-requisitos para obter conclusões e uma boa comparação teórica-experimental. A utilização de softwares se torna então essencial, permitindo, a partir de um mapeamento do fenômeno, visualizar melhor o que está acontecendo. Elaborar simulações usando Python é, em geral, um bom caminho, mas muitas vezes impreciso quando não se trata apenas de traçar gráficos, então o ideal é utilizar softwares mais específicos. Para entender melhor sobre isso, consulte o material do NOIC sobre simuladores. (em breve)
Vou utilizar como exemplo agora o P9 de 2025 (Assistência Magnética):
“Fixe um ou dois ímãs a uma base não magnética e não condutora de modo que eles atraiam um ímã suspenso por um fio. Investigue como o movimento do ímã suspenso depende de parâmetros relevantes.”
Aqui se tornava essencial obter um modelo 3D para observar melhor o movimento do ímã e poder até mesmo interpretar uma possível caoticidade no sistema. Veja como um modelo usando Python foi feito:


Como você pode ver, temos 2 representações do pêndulo magnético, e tanto para a 2ª fase como para a 3ª fase é interessante trazer GIFs com essas simulações para permitir uma boa visualização do fenômeno.
Limites e suposições teóricos
Outro elemento importante é a abordagem das limitações do seu modelo. Esse é outro tópico que se relaciona com a parte experimental, e diz respeito às condições que sua teoria não descreve ou, então, descreve mal, a exemplo a quebra de uma haste, um valor máximo em que suas medidas podem ser recolhidas, ou aproximações usadas no seu modelo. Na teoria, tudo sempre vai funcionar, não é mesmo? Mas, na prática, nem sempre é assim, e é importante você levar isso em conta. Para exemplificar, tomemos o P3 de 2025 (Bate Bate):
“Anexe uma bola em cada extremidade de um fio e conecte o centro do fio a um pivô. Quando o pivô oscila na direção vertical, as bolas começam a colidir e oscilar com amplitude crescente. Investigue o fenômeno.”
A parte que eu destaquei diz respeito a uma investigação essencial que deve ser feita, que se relaciona ao termo de dissipação energética ou de amortecimento causado pelo material das bolas. Assim, com diferentes bolinhas, o fenômeno pode ser mais ou menos fácil de visualizar. Sua teoria é inválida se você deixar de contabilizar algum termo de atrito ou um coeficiente de elasticidade de um material? Não, mas ela acaba sendo menos precisa. Por isso, inclusive, é importante a comparação teórica-experimental; se perceber que há algum efeito importante que não foi contabilizado no seu modelo, poderá voltar e adicioná-lo.
São muitos detalhes, eu sei, mas é um trabalho que deve ser lapidado aos poucos ao longo das fases do torneio, até que você chegue na 3º fase e possa apresentar a melhor versão do seu problema.
Teoria nas diferentes fases
Durante a 1ª fase, a fase de relatórios, há pouquíssimos limites para a exploração teórica graças à generalidade da grade de correção e ao generoso tamanho máximo permitido (20 páginas).
Sugerimos que descreva em detalhe uma única abordagem teórica, deixando evidente as explicações qualitativas para o fenômeno e deduzindo cada uma das equações físicas relevantes em uma sequência lógica, seguindo nossas instruções nas considerações gerais. Embora a grade de correção especificamente para a teoria seja abrangente, deve-se realizar também:
- Nos resultados e discussão, realizar uma comparação teórica-experimental.
- Na conclusão, (a) recapitular a abordagem teórica utilizada, (b) avaliar a coerência teórica-experimental, e (c) fazer sugestões de melhoria.
A comparação teórica-experimental deve consistir de uma análise entre os resultados dos experimentos e a previsão teórica. Basta comentar os resultados dessa comparação: por exemplo, houve uma concordância qualitativa dos experimentos com a teoria? Houve uma concordância quantitativa? Houve algum resultado inesperado nos gráficos? Se houve divergência entre experimental e teórico, como ela pode ser explicada? Lembre-se que a concordância perfeita entre teoria e experimento não é o objetivo, devido às limitações inerentes ao cálculo matemático! Novamente, a discussão dos limites do seu modelo enriquece sua apresentação, não a empobrece, e esse processo é uma parte crucial da física experimental. Quanto aos demais pontos da conclusão, eles servem simplesmente para sintetizar a discussão teórica feita no relatório.
Vale ressaltar que essa mesma teoria não precisa, necessariamente, ser usada nas fases posteriores.
Durante a 2ª e 3ª fase, marcadas pelos fights, os critérios de correção voltados para a teoria são mais específicos, se dividindo em três:
- Explicação qualitativa do fenômeno.
- Modelo utilizado.
- Comparação teórica-experimental.
A maioria dos pontos relevantes sobre esses critérios já foram discutidos, então não vamos repeti-los, mas gostaríamos de relembrar que, nas fases de fights, devemos sintetizar o trabalho de meses dentro de 10 minutos, então toda a explicação qualitativa deve ser concisa e direta, e geralmente você não terá tempo para explicar uma a uma suas contas (inclusive, a maioria dos jurados não gosta disso).
Vale relembrar que os problemas podem ser abordados de diferentes formas, então não se limite a estudar apenas uma das possibilidades de atacar o fenômeno, veja tudo aquilo que pode contribuir para uma boa solução! Não se esqueça que você pode receber vários tipos de perguntas dos opositores, dos avaliadores e também dos jurados, que possivelmente irão cobrar esses conhecimentos acumulados durante seus estudos para uma boa resposta, e isso certamente vai te salvar em muitos momentos e aumentará sua nota por demonstrar um bom domínio teórico. Inclusive, pode ser bom reservar alguns apêndices para fazer considerações sobre essas análises alternativas, por exemplo mostrando dados obtidos de uma análise diferente para mostrar que ela não era compatível com seus experimentos.
Agora, para concluir, uma dica muito boa que ajudou a mim e a outros colegas da IYPT: tenha um caderno, pode ser um pequeno mesmo, para ir anotando seu progresso, juntando todas as informações de suas pesquisas e seus estudos, bem como cada ideia genial ao longo do processo (tente ser criativo desenhando algumas possibilidades de ilustração para seu material). Isso ajuda muito a revisar tudo que foi feito e também torna muito gratificante o trabalho feito até então, deixando tudo mais divertido, já que um aluno que participa da competição trabalha de forma semelhante a um pesquisador.
