Aula 2 – Organização de argumentos

Nesta segunda aula, entenderemos como construir, articular e organizar argumentos para uma dada tese. Em primeiro lugar, vamos olhar para como a estrutura de ensaio pode ser decomposta a partir de seus argumentos. Olharemos então para estratégias que auxiliam o ordenamento dos argumentos. Um leitor atento deveria olhar para essa aula com a seguinte mensagem em mente: argumentos são não só a baliza da tese, mas da lógica que permeia a história sendo contada no ensaio.

Na rubrica de um ensaio nos modelos da Onfil, esta aula está mais preocupada com (iii) poder persuasivo da argumentação e (iv) coerência.

  1. Coerência interna da história dos argumentos

Vamos começar a nossa análise com o ensaio de Isak Barros de Morais Sampaio (BA) pela medalha de Ouro na final nacional da Onfil 2025. Ele está defendendo uma tese de concordância com o filósofo Ailton Krenak e, para tanto, deverá evidenciar um “jeito que vivemos” que “configura-se pelo uso excessivo e predatório dos recursos naturais, afetando as condições favoráveis para a manutenção da vida humana na Terra.” A tese é relativamente mais enxuta, podendo ser descontada em originalidade. Mas a progressão é bem estruturada. Vamos pontuar alguns parágrafos:

“A partir do que foi apresentado na introdução, tornou-se evidente que é necessário compreender qual é esse nosso comportamento humano que é criticamente analisado por Ailton Krenak. Nesse sentido, é ser necessário entender as raízes históricas sobre o qual se baseia nossa atual condição de existência, com o fito de entender a origem de nosso comportamento social e posteriormente defini-lo.”

O primeiro argumento aqui é um argumento histórico. A tese pragmática construída por Sampaio exige um certo respaldo histórico para que o leitor consiga visualizar o argumento na prática. O tópico não é algo abstrato, como o problema mente-corpo; é uma tese que dialoga diretamente com o modus operandi humano, com o nosso viver hoje. Argumentos que se embasem em exemplos contemporâneos – cujo apogeu é um argumento histórico – são praticamente imprescindíveis.

  1. Estrutura premissa-conclusão: uma forma de pensar argumentos

“Nesse contexto, é importante trazer à discussão o conceito de Materialismo Histórico

Dialético, também defendido por Marx. Esse conceito consiste na compreensão de que omodo de produção de uma sociedade é capaz de determinar as suas condições e transformações históricas. Sob esse viés, como já foi anteriormente discutido, o modo de produção atual é o sistema capitalista, que caracteriza-se pelo constante incentivo do consumismo como pilar para a sua manutenção. Desse modo, é possível, inclusive, esquematizar o seguinte silogismo:

P1: O modo de produção determina as condições históricas;

P2: Atualmente, o consumismo é um pilar do modo de produção;

C: Atualmente, o consumismo determina as condições históricas.”

Esse excerto, retirado do ensaio de Isak Barros de Morais Sampaio (BA) pela medalha de Ouro na Etapa Final da Onfil 2025, ilustra uma boa forma de sistematizar argumentos para haver coerência interna no ensaio. Se olharmos os ensaios ganhadores de medalha de ouro em 2025, 20% dos ensaios regionais e 33% dos ensaios finais usaram esse modelo, o que demonstra que é uma estrutura respeitada pelo corpo de júris, ainda que não seja obrigatória para um bom ensaio. Uma estrutura de argumentos que se encaixa nessa estrutura é uma boa estrutura de argumentos.
Vamos ver como se dá a estrutura: temos premissas, pontos iniciais da reflexão, que culminam em uma conclusão. Podemos pensar nessa estrutura em dois âmbitos. Em primeiro lugar, de um ponto de vista macro, a sua conclusão é a tese, e as premissas são os argumentos. Mas também podemos ver de um ponto micro: a conclusão é um dos argumentos em si, e as premissas são todos os raciocínios necessários para confirmar a validade do argumento.
Vamos entender essa estrutura na prática: o ensaio de Isak, podemos atestar que o silogismo acima é micro no sentido que a conclusão é um argumento. Se “C: Atualmente, o consumismo determina as condições históricas” fosse, na verdade, uma premissa para a tese do texto de que nossa relação com o mundo é predatória, o silogismo seria macro.
Sob esse viés, a coerência argumentativa do texto se dá quando os argumentos apresentados colaboram para a tese, direta ou indiretamente. O poder persuasivo dos argumentos se dá quando as premissas acarretam a conclusão de forma mais inevitável. Ou seja, um argumento fraco, como “Já que mortes por tubarões aumentam quando as vendas de sorvete aumentam, as vendas causam as mortes”, pois, ainda que as premissas sejam atinentes ao tópico, há muitas outras conclusões possívieis, dadas as premissas. Observe a esquematização abaixo:

Um argumento persuasivo é aquele que deixa pouco espaço para dúvida. É nessa perspectiva, também, que entram contra-argumentos: eles servem para deixar a conclusão advinda das premissas ainda mais certeira. É importante, ainda assim,  notar que é interessante evitar certas generalizações (“sempre”, “nunca”, “todos”…), a não ser que seja permitido dentro do argumento.
Não pense, porém, que um ensaio totalmente fechado é necessariamente bom. A dúvida pode ser usada de forma metódica em certs momentos. Às vezes, justamente pelo resquício, pela refutação do direcionamento das premissas, que se pode construir uma tese ainda mais sofisticada. A tese, nesse sentido, pode ser uma irresolução; pode-se tentar argumentar que, por exemplo, é impossível determinar a existência do livre-arbítirio; a questão é que os argumentos colaboram de forma coerente e poderosa para essa tese.
Além do mais, podemos voltar à estrutura apresentada na aula 1, sobre como escrever um ensaio:

Introdução
Argumento 1
Contra-argumento 1 (e refutação)
Argumento 2
Contra-argumento 2 (e refutação)
Conclusão

A conclusão/tese, apresentada na introdução, é sustentada pelas duas premissas desenvolvidas nos argumentos 1 e 2. Elas são potentes porque, além de haver uma secção dedicada à dedução lógica delas, há outra secção dedicada para reafirmá-la perante contra-argumentos. Nos parágrafos seguintes, Isak faz exatamente essa refutação, o que eleva o rigor de sua tese e é um dos motivos para sua ótima performance.

  1. Tipificação: outra forma de pensar a argumentação

Vamos voltar ao tópico do argumento histórico. Podemos pensar nos argumentos possíveis para um ensaio como de diversos tipos, e para tanto teremos que tipificá-los. Se pensarmos, podemos desenvolver um argumento nos seguintes moldes empíricos ou racionais, pegando emprestado conceitos averiguados pela tradição filosófica. O melhor, ao meu ver, é uma combinação dos dois, tal como o sujeito kantiano une a empiria e a racionalidade.
Pois veja: por um lado, não queremos só jogar para o leitor uma miríade de fatos empíricos na expectativa de que ele o digira e o transforme autonomamente em uma tese filosófica. Uma planilha cheia de dados, um exemplo extremo, mostra que a racionalidade é essencial para o ensaio. Por outro, um ensaio que se restrinja apenas à discussão no âmbito racional é fraco porque não só abre portas para refutações mais cabíveis, mas também porque acaba sendo irreal.
Esse argumento parece ser um pouco estranho, então aqui vai um exemplo. Os modelos econômicos liberais do início do Século XX se embasavam em uma dicotomia de Hume de que variáveis nominais (nível dos preços) não afetam variáveis reais (produção real). O argumento faz sentido: os mercados eram tidos como mecanismos de rápido ajuste, ordenados pela troca voluntária e pela Lei de Say. Foi necessário uma quebra de paradigma (Keynes, no caso) para readaptar a teoria que parecia totalmente válida para um contexto em que salários e preços não se ajustam instantaneamente.
Ou, ainda, perceba o argumento deste próprio texto. O exemplo acima serve para concretizar uma premissa que não foi convincentemente exposta (da necessidade de argumentos empíricos).
Dessa maneira, outra forma de pensar seu ensaio é um balanço entre o racionalismo e o empirismo. Construir uma tese em cima de relações de causa e consequência, paradoxos, princípios, arcabouços filosóficos, e em cima dessa baliza expor exemplos concretos, talvez históricos, é uma ótima forma de pensar um ensaio. Interessantemente, o silogismo proposto por Isak usa exatamente essa dicotomia: um princípio (“P1: O modo de produção determina as condições históricas”) e uma observação do mundo real (“P2: Atualmente, o consumismo é um pilar do modo de produção”).

Então revisamos como argumentos podem ser construídos, como pensar em argumentos, e como imibuti-los de coerência e persuasão. Verifique nossa próxima aula sobre relação ao tópico para continuar sua jornada!

Outras aulas:

Aula 1 – Construção de Tese
Aula 3 – Relação ao Tópico