Escrita por Antonio Italo
Nessa ideia, chegaremos a chamada equação de Binet. Essa equação diferencial é utilizada para encontrarmos a equação da trajetória de um corpo submetido a uma força central, por exemplo, essa equação pode ser utilizada para mostrar que os planetas do sistema solar se movem numa elipse com foco no sol, a partir da expressão da força gravitacional (O oposto também pode ser feito). A seguir, vamos ver a definição dessa equação e uma aplicação da mesma a partir da lei da gravitação universal. OBS: Apesar do conteúdo dessa ideia estar presente desde o Nível 2 da OBF, as técnicas utilizadas aqui são bem avançadas, envolvendo cálculo e eq. diferenciais simples, sendo mais recomendada para quem estiver estudando para provas mais avançadas como a da própria seletiva de Física.
Demonstração
Para iniciar, devemos escrever a equação do movimento para um corpo submetido a uma força central, ou seja, uma força do tipo:

Já que a força é central, sabemos que o movimento se limitará a um plano, devido a conservação do vetor momento angular, dado por:

Essa conservação pode ser demonstrada se derivarmos o vetor momento angular e aplicarmos a regra do produto:

Note que isso é zero, pois tanto
é paralelo à
quanto
é paralelo à
, já que
é central. Sabendo disso, podemos utilizar um sistema de coordenadas bidimensional. Nesse caso, utilizaremos um sistema de coordenadas polar
. Em coordenadas polares, as equações de movimento ficam:


A segunda equação leva diretamente a conservação do momento angular:

E a primeira equação dará origem à equação de Binet, quando aplicarmos a seguinte substituição de variável:

Mas antes disso, perceba que podemos trocar:

utilizando a regra da cadeia. Sabendo disso, calculemos
em função de
,
,
e suas derivadas.

Derivando novamente:

Agora, substituindo o valor de
e de
na equação de movimento radial, obtemos:


Que é a equação de Binet. A seguir, apliquemos ela para a lei da gravitação universal e verifiquemos sua utilidade.
Órbitas Cônicas
Da lei da gravitação universal de Newton, sabemos que:

no caso gravitacional. Substituindo essa força na equação de Binet, obtemos:

Sendo essa equação consideravelmente simples de se resolver. Muitos devem estar familiarizados com equações do tipo:

Pois essa equação é muito conhecida em problemas de
, porém, obtivemos uma equação com uma constante do outro lado, dessa forma devemos somar uma constante à solução padrão do
para obtermos a solução geral. Nesse caso, temos então que:

Sobre a constante
, podemos dar a mesma qualquer valor, já que há uma ambiguidade na posição
, sendo assim, por conveniência, façamos 
A equação da trajetória é então do tipo:

Que é a equação geral de uma cônica (Elipse, Parábola ou Hipérbole) a partir de um dos focos. A constante
é o chamado semi-lactus rectum da cônica e
é a excentricidade da cônica. Essas constantes são determinadas pela energia e pelo momento angular da partícula submetida ao potencial central.
Órbita circular diferenciada
Uma partícula realiza uma órbita circular de raio
sujeita à uma força centra
, com centro de força (Local para onde a força central aponta) em um ponto pertencente à órbita (ver Imagem). Qual é o formato da força? Esse é outro tipo de problema típico onde a equação de Binet pode ser utilizada!
Para resolvermos o problema, basta acharmos a expressão para
e
em função de
e substituirmos na equação de Binet. O primeiro passo é simples, por definição:

Mas devemos achar
em função de
. Definamos aqui
como o ângulo entre a reta que liga o centro de força e a partícula com a reta que liga o centro de força ao centro da órbita. Temos que:

Logo:


Portanto:

E, daí, utilizando as derivadas do produto, da secante e da tangente, além da relação fundamental da trigonometria:

Aplicando na equação de Binet:

Mas note que
, logo:

Logo:

Logo, temos uma força proporcional a
.
Exercícios Relacionados
1 – Órbita Espiral (MIT)
Uma partícula se move em duas dimensões sobre ação de uma força central determinada pelo potencial
, encontre os valores de
e
para que a partícula possa se mover em uma órbita espiral da forma
, com
sendo uma constante.
2 – Força central de uma órbita (Princeton)
Encontre a força central que resulta na seguinte órbita para uma partícula:

3 – Encontro Terra-Cometa (Princeton)
Calcule o máximo tempo que um cometa de massa
seguindo uma trajetória parabólica (Dica:
) ao redor do sol pode gastar dentro da órbita da Terra. Assuma que a órbita da Terra é circular e está no mesmo plano que a do cometa. (Ver figura).
4 – Trivial, mas de outro jeito (David Morin, adaptada)
É um fato conhecido que quando a força sobre um corpo é nula sua trajetória será uma reta (se o mesmo estiver se movendo), contudo, esse fato é um pouco confuso em coordenadas polares. Utilizando a equação de Binet, encontre a trajetória do corpo em coordenadas polares e mostre que essa é uma reta.
5 – Casos e casos
Encontre a equação da trajetória de uma partícula submetida à uma força central do tipo
. Analise os diferentes casos.


