Parte III: Sintaxe
Por Daniel Agi Pigini
Por mais que o conteúdo de sintaxe seja menor que o de morfologia, isso não significa que esses problemas sejam menos complexos. Tudo que se aplica aos problemas de sintagma continua sendo útil. Afinal, a sintaxe nada mais é que a interação entre nomes e verbos em uma frase. Geralmente, nesse tipo de problema dão uma lista de frases com suas traduções para você descobrir as regras. Você tem que separar bem as classes de palavras (com as mais comuns sendo substantivos/pronomes, verbos e advérbios) e as coisas que as afetam. Por isso, o conceito de glosa continua sendo muito importante.
Argumentos e hierarquia pronominal:
Como dito na seção de sintagma verbal, os argumentos são os termos associados ao verbo: os sujeitos e objetos. A partir de agora vamos usar a nomenclatura S, A e O para nos referirmos a esses argumentos. S se refere ao sujeito, nesse caso especificamente dos verbos intransitivos. A é o agente, o sujeito de verbos transitivos. O, por sua vez, representa o objeto de verbos transitivos. Em muitas línguas, caso esses argumentos sejam pronomes, eles podem ser anexados diretamente ao verbo, diferentemente do português.
Em alguns casos, os afixos que representam o verbo podem ser compostos por outros afixos (por exemplo, em vez de um afixo para expressar “eu”, um que demonstre 1ª pessoa e outro que mostre singular). Além disso, é comum que a 3ª pessoa do singular não seja marcada (representamos por “”.
Um outro conceito importante é o de hierarquia pronominal. Na maior parte das línguas que conhecemos, a distinção entre sujeito e objeto nos verbos transitivos é feita pela ordem na frase (ordem frasal é nosso próximo tópico). Vejamos por exemplo o suaíli. A estrutura que o verbo segue é sujeito-tempo-objeto-radical. Assim, ninawuona significa “eu vejo você”, enquanto wunaniona é traduzido como “você me vê”. Mas nem sempre é assim. Em algumas línguas, pode haver uma hierarquia pronominal, ou seja, a ordem dos pronomes que representam o sujeito e o objeto não são determinadas por seu papel, mas sim pela pessoa a que se referem.
As hierarquias pronominais mais comuns são 2>1>3 e 1>2>3 (X>Y significa que o pronome que indica a pessoa X vem antes do pronome que indica a pessoa Y). Nesses casos, deve também ser adicionado um afixo que indica se a ordem tradicional da língua está sendo seguida ou não (a partir desse afixo, determinamos quem é o sujeito e quem é o objeto).
Ordem frasal:
A ordem frasal é um dos fenômenos mais importantes nos problemas de sintaxe, e diz respeito à ordem em que os elementos mais importantes da oração vão estar posicionados. Existem seis possibilidades: SVO, SOV, VSO, VOS, OSV E OVS (S=sujeito, V=verbo e O=objeto). De forma geral, os padrões SVO e SOV são os mais comuns, seguidos por VSO. Esses padrões são aqueles em que o sujeito precede o objeto. Por isso, é bem provável que isso ocorra no “problemês” também, apesar de existirem exceções.
Em relação à ordem frasal, as línguas podem apresentar uma ordem frasal fixa ou flexível. Quando a ordem frasal é fixa, geralmente não se adiciona marcadores para indicar a função do nome (as chamadas declinações, que já discutimos), já que a função dos nomes é bem definida por sua posição. Por exemplo, em o menino vê o cachorro e o cachorro vê o menino, sabemos quem é o sujeito e quem é o objeto apenas por sua posição. Vale ressaltar que quando a ordem é fixa não necessariamente as outras ordens estão incorretas gramaticalmente. Elas apenas são menos usadas, e muitas vezes podem gerar ambiguidade, como em o menino o cachorro vê.
Já nas línguas em que a ordem frasal é flexível, várias formas frasais podem ser utilizadas de forma frequente e sem ambiguidade, já que as declinações indicam de forma clara os papeis sintáticos de cada nome. Compare, por exemplo, essas três frases em romeno:
Uriașul îl dă pe copil tatălui.
Tatălui îl dă uriașul pe copil.
Pe copil îl dă uriașul tatălui.
Apesar da ordem dos elementos da oração ser diferente, as três possuem a mesma tradução para o português: “o gigante dá a criança ao pai”. Isso acontece porque o sujeito (uriașul=gigante) nunca é marcado, enquanto o objeto direto (copil=criança) é precedido por pe e o objeto indireto (tatăl=pai) é marcado pelo sufixo -ui. Assim, a ambiguidade é eliminada.
Às vezes, determinar apenas a posição do sujeito, do verbo e do objeto pode não ser suficiente. Podem existir outras palavras na oração, como adjetivos e advérbios. Nesses casos, pode ser mais fácil determinar a ordem dos elementos no próprio sintagma nominal. Por exemplo, no caso do português, é mais fácil dizer Artigo – Nome – Modificador e S – V – OD – OI que dizer Artigo – S – Modificador – V – Artigo – OD – Modificador – Artigo – OI – Modificador, no caso de frases como “o pai carinhoso deu o presente caro ao filho mimado”.
Quando a ordem frasal é flexível, é possível, também, que haja um mudança na ênfase (ou foco) do enunciado, seja pela simples alteração na ordem mudando o termo enfatizado ou até por uma estrutura tópico-comentário. Mas isso você vai ver mais à frente, em Foco.
Alinhamento morfossintático:
O alinhamento morfossintático é a forma pela qual os três argumentos verbais que definimos anteriormente (S, A e O) se relacionam. Em algumas línguas, declinações podem indicar o papel do nome na oração, além de ser bem comum que haja afixos diferentes para algumas funções ou até mesmo pronomes (como é o caso do português, em que os pronomes pessoais do caso reto exercem a função de sujeito e os do caso oblíquo a função de objeto). Além disso, há uma distinção na ordem frasal (no português, por exemplo, o sujeito tradicionalmente precede o objeto).
As línguas com as quais estamos mais habituados, como o português e o inglês, tendem a associar S e A (por exemplo, o pronome que representa A em “eu comi o bolo” é o mesmo que representa S em “eu viajei” e diferente do que representa O em “você me vê”. Mas isso nem sempre acontece. Por isso, é importante conhecer os principais tipos de alinhamento morfossintático. O importante não é decorar seus nomes, mas sim conhecer a ideia por trás de seu funcionamento e manter a mente aberta para alinhamentos diferentes que podem estar presentes no “problemês”.
- Alinhamento nominativo-acusativo: é o mais comum. Nesses casos, o sujeito de verbos transitivos e intransitivos é marcado de forma igual, distinguindo-os dos objetos.
- Alinhamento ergativo-absolutivo: bastante frequente nos problemas de linguística, esse alinhamento associa o sujeito de verbos intransitivos aos objetos, marcando os sujeitos de verbos transitivos de forma diferente. Está presente nas línguas inuítes e no basque.
- Alinhamento ativo-estativo: esse alinhamento é bem pouco frequente, e marca A e O de forma igual, enquanto S recebe uma marcação diferente.
- Alinhamento tripartido: nas línguas que apresentam esse alinhamento, os três tipos de argumento são marcados de forma diferente.
- Alinhamento direto: é o contrário do alinhamento tripartido, ou seja, S, A e O recebem a mesma marcação.
Algumas línguas podem apresentar variações mais complexas, como a adoção de alinhamentos diferentes dependendo do tempo verbal. Mas, de forma geral, mais importante que decorar todos esses termos técnicos é treinar o olhar para reconhecer diferentes padrões e ter criatividade para perceber possíveis variações. Assim, como em todo problema de linguística, o segredo é praticar com problemas passados.
A mais conhecida exceção ao sistema apresentado acima é o alinhamento austronésio (ou voz simétrica), sendo encontrado em línguas da família austronésia em países como Filipinas, Indonésia e Taiwan. Ao invés de haver alteração nos argumentos, o verbo é que recebe uma partícula que indica o gatilho da sentença, podendo ser agente, paciente ou até referente, enfatizando esse argumento. Apesar de raro nos problemas de linguística, é possível que ele apareça, principalmente em olimpíadas mais complexas. Nesses casos, o alinhamento adotado pode ser nominativo-acusativo ou ergativo-absolutivo, dependendo do contexto.
Foco:
O foco é o processo pelo qual se dá ênfase em determinada parte da oração. Em línguas como o português e o inglês, podemos fazer isso simplesmente pela entonação da fala ou colocando a parte à qual se quer dar ênfase no começo da oração (processo conhecido como topicalização). Apesar disso, no “problemês” podem existir estruturas mais rebuscadas para dar esse tipo de ênfase. Na língua uolofe, por exemplo, existe uma variação nos pronomes que traz o foco sobre o verbo ou sobre o objeto. A tabela abaixo relaciona os pronomes pessoais para as primeira e segunda pessoas do singular nessa língua:
| Pessoa | A/S | O | Foco no Verbo | Foco no Objeto |
| 1SG | man | ma | damay | laa |
| 2SG | yow | la | dangay | nga |
Dessa forma, a frase “eu vi você” pode ser traduzida de diversas formas para uolofe, dependendo da ênfase que se deseja dar. Alguns exemplos são:
- Man la gisoon (sem ênfase).
- Damay gisoon la (ênfase no verbo “ver”).
- Nga man gisoon (ênfase no objeto “você”).
É importante perceber que além da mudança do pronome, a palavra que indica a ênfase vem antes, ou seja, é um fenômeno acompanhado de topicalização. A estrutura que sofre topicalização (a que vem no começo da frase) é conhecida como tópico-comentário.
