Problema 1
As bissetrizes internas dos ângulos $$A\hat{B}C$$ e $$A\hat{C}B$$ do triângulo $$ABC$$ se encontram no ponto $$I$$. A reta paralela a $$BI$$ que passa pelo ponto $$A$$ encontra a reta $$CI$$ no ponto $$D$$. A reta paralela a $$CI$$ por $$A$$ encontra a reta $$BI$$ no ponto $$E$$. As retas $$BD$$ e $$CE$$ se encontram no ponto $$F$$. Mostre que $$F$$, $$A$$ e $$I$$ são colineares então $$AB = AC$$.
Solução
Vamos mostrar que se $$F$$, $$A$$ e $$I$$ são colineares, então, $$AB = AC$$.
Observe o triângulo $$FIC$$, como $$IC // AE$$, pelo Teorema de Tales:
$$\dfrac{FA}{AI} = \dfrac{FE}{EC}$$
Agora observe o triângulo $$FIB$$, como $$IB // AD$$, novamente pelo Teorema de Tales:
$$\dfrac{FA}{AI} = \dfrac{FD}{DB}$$
Por fim, chame de $$N$$ o ponto que $$AI$$ corta $$BC$$ e utilize o teorema de Ceva no triângulo $$FBC$$:
$$\dfrac{BN}{NC} \cdot \dfrac{EC}{FE} \cdot \dfrac{FD}{DB} = 1$$
Pelos resultados anteriormente encontrados:
$$\dfrac{BN}{NC} \cdot \dfrac{AI}{FA} \cdot \dfrac{FA}{AI} = 1 \Rightarrow \dfrac{BN}{NC} = 1 \Rightarrow BN = NC$$
O ponto $$N$$ será ponto médio de $$BC$$. Para finalizar o problema basta aplicarmos o teorema da Bissetriz Interna relativa ao lado $$BC$$:
$$\dfrac{AB}{AC} = \dfrac{BN}{NC}$$
Mas $$\dfrac{BN}{NC} = 1 \Rightarrow AB = AC$$.
Como queríamos demonstrar!
Problema 2:
Encontre o menor $$n$$ tal que qualquer conjunto de $$n$$ pontos do plano cartesiano, todos com coordenadas inteiras, contém dois cujo quadrado da distância é um múltiplo de $$2016$$.
Solução
Sabemos por geometria analítica que a distância $$d$$ entre dois pontos $$A$$ e $$B$$ pode ser obtida em função das coordenadas $$x$$ e $$y$$ dos pontos $$A$$ e $$B$$ a partir desta equação:
$$d=\sqrt{(x_A-x_B)^2+(y_A-y_B)^2}$$
$$d^2=(x_A-x_B)^2+(y_A-y_B)^2$$
Chamando $$(x_A-x_B)=x$$ e $$(y_A-y_B)=y$$ e sabendo que $$d^2 \equiv 0 (mod \ 2016)$$ temos:
$$x^2-y^2 \equiv 0 (mod \ 2016)$$
$$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 2016)$$
Como $$2016=2^5\cdot3^2\cdot7=32\cdot9\cdot7$$ então $$x,y$$ satisfazem:
$$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 7)$$ (1)
$$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 9)$$ (2)
$$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 32)$$ (3)
Em (1): se $$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 7)$$ então existe $$a$$ para tal que $$a^2 \equiv -1 (mod\ 7)$$, mas sabemos por Legendre que $$(\dfrac{-1}{7})=(-1)^\dfrac{7-1}{2}=-1$$, portanto $$-1$$ não é resíduo quadrático, então não existe $$a$$ tal que $$a^2 \equiv -1 (mod\ 7)$$, logo a única solução é $$x^2\equiv y^2\equiv0(mod\ 7) \Rightarrow x\equiv y\equiv0(mod\ 7)$$.
Em (2): se $$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 9) \Rightarrow x^2 \equiv -y^2 (mod \ 3)$$ então existe $$a$$ para tal que $$a^2 \equiv -1 (mod\ 3)$$, mas sabemos por Legendre que $$(\dfrac{-1}{3})=(-1)^\dfrac{3-1}{2}=-1$$, portanto $$-1$$ não é resíduo quadrático, então não existe $$a$$ tal que $$a^2 \equiv -1 (mod\ 3)$$, logo a única solução é $$x^2\equiv y^2\equiv0(mod\ 3) \Rightarrow x\equiv y\equiv0(mod\ 3)$$.
Em (3): se $$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 32)$$. Olhando os resíduos quadráticos módulo $$32$$: $$0,1,4,9,16,17,25$$, vemos que os únicos que satisfazem $$x^2 \equiv -y^2 (mod \ 32)$$ são $$x^2 \equiv y^2 \equiv0(mod \ 32)$$ ou $$x^2 \equiv y^2 \equiv16(mod \ 32)$$, e então $$x \equiv y \equiv0(mod \ 8)$$ ou $$x \equiv y \equiv4(mod \ 8)$$.
Daí tiramos que $$x$$ e $$y$$ satisfazem estas três equações abaixo:
$$x \equiv y \equiv0(mod \ 7)$$
$$x \equiv y \equiv0(mod \ 3)$$
$$x \equiv y \equiv0(mod \ 8)$$ ou $$x \equiv y \equiv4(mod \ 8)$$
De onde podemos reduzir para:
$$x \equiv y \equiv0(mod \ 168)$$ (4) ou
$$x \equiv y \equiv84(mod \ 168)$$ (5)
Logo precisamos contabilizar o menor número $$n$$ tal que conseguimos encontrar $$x,y$$ que satisfazem (4) ou (5). Para isto utilizaremos de argumentos combinatórios. Para isto utilizaremos o PCP e tentaremos descobrir o maior $$n’$$ tal que o enunciado não é verdade, defina $$A_i$$ como o conjunto de todos os pontos do plano que possuem sua coordenada $$x$$ como $$x \equiv i(mod \ 168)$$ e coloque $$i$$ variando de $$0$$ a $$167$$.
Lema 1: $$A_i$$ possui no máximo $$168$$ elementos.
Prova: Caso $$A_i$$ possua mais que $$168$$ elementos então existem dois pontos que possuem sua coordenada $$y$$ com a mesma congruência módulo $$168$$ e então por (4) encontramos dois pontos que possuem sua distância múltipla de $$2016$$, algo que não queremos, logo não podemos ter dois elementos de $$A_i$$ com sua coordenada $$y$$ de mesma congruência módulo $$168$$, e então $$A_i$$ possui no máximo $$168$$ elementos.
Lema 2: O par de conjuntos $$A_i$$ e $$A_{i+84}$$ possuem no máximo 168 elementos juntos.
Prova: Caso $$A_i$$ e $$A_{i+84}$$ (perceba que $$168+i=i$$) possuem mais que $$168$$ elementos então existem dois pontos que possuem suas coordenadas $$y$$ em algum dos dois conjuntos diferenciando de $$84$$ módulo $$168$$ por PCP onde basta colocar $$84$$ casas com os pares de números que diferenciam de $$84$$ módulo $$168$$ e portanto se tivermos mais que $$168$$ teremos três na mesma casa e logo teremos dois números diferenciando de $$84$$ ou três números com a mesma congruência módulo $$168$$ e então $$A_i$$ ou $$A_{i+84}$$ terá dois elementos com mesma coordenada $$y$$ (absurdo pelo lema 1) logo existem dois números diferenciando de $$84$$, e então por (5) encontramos dois pontos que possuem sua distância múltipla de $$2016$$, algo que não queremos, logo não podemos ter dois elementos de $$A_i$$ e $$A_{i+84}$$ com suas coordenadas $$y$$ diferenciando de $$84$$ módulo $$168$$, e então $$A_i$$ e $$A_{i+84}$$ possuem no máximo $$168$$ elementos.
Vejamos agora que todos os conjuntos terão no máximo $$168\cdot84=14112$$ elementos, onde se adicionarmos um elemento ou o lema 1 ou o lema 2 deixará de fazer efeito e então teremos que existem dois pontos que possuem sua distância múltipla de $$2016$$ e com $$14112$$ elementos um fácil contra exemplo é colocando $$84$$ pontos em cada $$A_i$$ de tal modo que a congruência de suas coordenadas $$y$$ módulo $$168$$ sejam $$0,1,2,3,…83$$. Vejamos que nenhum par de pontos satisfaz (4) ou (5). Logo com $$14113$$ pontos certamente encontraremos dois que satisfazem ou (4) ou (5) e portanto serão múltiplos de $$2016$$.
Problema 3:
Seja $$k$$ um inteiro positivo fixado. Alberto e Beralto participam do seguinte jogo: dado um número inicial $$N_0$$ e começando por Alberto, eles alternadamente fazem a seguinte operação: trocar um número $$n$$ por um número $$m$$ tal que $$m<n$$ e $$n$$ e $$m$$ diferem, na sua representação em base $$2$$, exatamente em $$l$$ dígitos consecutivos para algum $$l$$ tal que $$1\le l\le k$$. Quem não conseguir jogar perde. Dizemos que um inteiro não negativo $$t$$ é vencedor quando o jogador que recebe o número $$t$$ tem uma estratégia vencedora, ou seja, consegue escolher os números seguintes de modo a garantir a vitória, não importando como o outro jogador faça suas escolhas. Caso contrário, dizemos que $$t$$ é perdedor. Prove que, para todo $$N$$ inteiro positivo, a quantidade de inteiros não negativos perdedores e menores do que $$2^{N}$$ é $$2^{\left \lfloor N-log_2(min(k,N)) \right \rfloor}$$.
Observação: $$\left \lfloor x \right \rfloor$$ é o maior inteiro menor ou igual a $$x$$. Por exemplo, $$\left \lfloor\pi \right \rfloor=3,14$$, $$\left \lfloor2 \right \rfloor=2$$ e $$\left \lfloor-4,6 \right \rfloor=-5$$.
Solução:
O problema, infelizmente, não possui solução com o enunciado em tais condições, visto a quebra de lógica em que, fazendo os casos iniciais, vemos um contra exemplo. Para um $$k>2$$, podemos constatar que $$0,1$$ sempre serão posições perdedoras e $$2,3$$ sempre serão posições vencedoras, basta colocar $$N=1$$ e $$N=2$$ na fórmula, e basicamente isso contradiz o problema já que podemos ir do $$1$$ para $$0$$ e portanto $$1$$ seria vencedor e qualquer outra interpretação do enunciado é contradita a partir destas quatro posições já definidas. A equipe do Noic espera poder corrigir o problema e resolvê-lo. Sstamos aguardando possíveis correções e pedimos desculpas ao leitor, mas esperamos a compreensão, visto o erro da prova.
Problema 4:
Qual é a maior quantidade de inteiros positivos menores ou iguais a $$2016$$ que podemos escolher de modo que não haja dois números cuja diferença é $$1$$, $$2$$ ou $$6$$?
Solução
A maior quantidade de inteiros positivos menores ou iguais a $$2016$$ que podemos escolher de modo que não haja dois números cuja diferença é $$1$$, $$2$$ ou $$6$$ é $$576$$. Suponha que não, então é pelo menos $$577$$. Divida os números de $$1$$ a $$2016$$ em $$288$$ “grupos” de $$7$$ números consecutivos:
$$(1,2,3,4,5,6,7),(8,9,10,11,12,13,14),(15,16,17,18,19,20,21),…,(2010,2011,2012,2013,2014,2015,2016)$$
Como $$577 = 2 \times 288 + 1$$, pelo Princípio das Casas dos Pombos um dos grupos terá três números escolhidos. Tome apenas os restos dos números desse grupo na divisão por $$7$$, pela disposição independentemente do grupo teremos:
$$(0,1,2,3,4,5,6)$$
Vamos mostrar que é impossível escolher três números desta configuração, para isso vamos dividir o problema em casos, onde em cada um vamos explorar as possibilidades a partir de determinado o primeiro dos três escolhidos (lembrando que não podemos escolher números cuja diferença é $$1$$, $$2$$ ou $$6$$ pelo enunciado do problema):
(0) Caso seja $$0$$: Restam $$3,4,5$$.
(1) Caso seja $$1$$: Restam $$4,5,6$$.
(2) Caso seja $$2$$: Restam $$5,6$$.
(3) Caso seja $$3$$: Restam $$0,6$$.
(4) Caso seja $$4$$: Restam $$0,1$$.
(5) Caso seja $$5$$: Restam $$0,1,2$$.
(6) Caso seja $$6$$: Restam $$1,2,3$$.
A partir desses dados, basta mostrar que escolher dois números dentre dois ou três consecutivos gera um absurdo, mas isso, de fato, acontece:
– Dois consecutivos têm diferença $$1$$.
– Dentre os três consecutivos não podemos escolher dois consecutivos pela preposição anterior, logo resta “descartar” o do meio, mas ainda assim os números restantes terão diferença igual a $$2$$.
Analisando novamente os casos, o único que não gera absurdo a partir dessas afirmações é o $$(3)$$, mas $$0$$ e $$6$$ têm diferença $$6$$, o que também não pode pelo enunciado, logo não podemos escolher $$577$$ números e o máximo é, de fato, $$576$$.
Podemos construir um exemplo escolhendo todos números que deixam resto $$3$$ ou $$6$$ na divisão por $$7$$.
Problema 5:
Considere o polinômio do segundo grau $$P(x) = 4x^2 +12x-3015$$. Defina a sequência de polinômios $$P_{1}(x) = \dfrac{P(x)}{2016}$$ e $$P_{n+1}(x) = \dfrac{P(P_{n}(x))}{2016}$$ para todo inteiro $$n\ge1$$
(a) Prove que existe um número real $$r$$ tal que $$P_{n}(r) < 0$$ para todo inteiro positivo $$n$$.
(b) Determine a quantidade de inteiros $$m$$ tais que $$P_{n}(m) < 0$$ para infinitos inteiros positivos $$n$$.
Solução:
a) Olhando para as raízes do polinômio $$Q(x)=P(x)-2016x$$ temos que $$x$$ satisfaz $$4x^2+12x-3015-2016x=0$$ logo basta resolver a equação do segundo grau: $$4x^2-2004x-3015=0$$, onde:
$$x=\dfrac{2004\pm\sqrt{(-2004)^2-4\cdot4\cdot(-3015)}}{2\cdot4}$$
$$x=\dfrac{2004\pm\sqrt{4064256}}{8}$$
$$x=\dfrac{2004\pm\sqrt{2016^2}}{8}$$
$$x=\dfrac{2004\pm 2016}{8}$$
Logo $$x=\dfrac{2004+2016}{8}=502,5$$ e $$x=\dfrac{2004-2016}{8}=-1,5$$, portanto $$Q(-1,5)=P(-1,5)-2016\cdot (-1,5)=0 \Rightarrow P(-1,5)=2016\cdot (-1,5)$$. Coloque $$r=-1,5$$, então $$P_1(-1,5)=\dfrac{P(-1,5)}{2016}=\dfrac{2016\cdot (-1,5)}{2016}=-1,5$$ e portanto $$P_1(-1,5)=-1,5$$ e indutivamente se $$P_n(-1,5)=-1,5$$ então $$P_{n+1}(-1,5)=\dfrac{P(P_n(-1,5))}{2016}=\dfrac{P(-1,5)}{2016}=\dfrac{2016\cdot (-1,5)}{2016}=-1,5$$, logo para todo $$n$$ vale que $$P_n(-1,5)=-1,5$$, logo se $$r=-1,5$$ então $$P_n(r)=-1,5<0$$ para todo $$n$$, e portanto achamos o $$r$$ que queríamos.
Obs.: Antes que o leitor pense que “tiramos do bolso” o polinômio $$Q(x)$$ observe que é extremamente intuitivo pensarmos na ideia de ponto fixo, ou seja, fazer com que $$P_n(x)=x$$ para todo $$n$$ e a partir disto chegaríamos no polinômio $$Q(x)$$.
b) Primeiramente vejamos que segundo o polinômio $$Q(x)$$ sabemos que se $$x<-1,5$$ e $$x>502,5$$ então $$Q(x)>0$$, ou seja, $$P(x)>2016x$$. Esqueça temporariamente a condição $$x<-1,5$$ e trabalhemos agora apenas com números positivos (estamos fazendo isso pois se $$x$$ for negativo haverá uma troca no sinal da desigualdade, o que não queremos, mas depois ajeitaremos isto). Então se $$x$$ é positivo e $$x>502,5$$ então $$P(x)>2016x$$.
Lema 1: Se $$x>502,5$$ então $$P_n(x)>0$$ para todo $$n$$.
Prova: Vejamos que se $$x>502,5$$ então $$P(x)>2016x$$. Logo $$P_1(x)=\dfrac{P(x)}{2016}>\dfrac{P(502,5)}{2016}>\dfrac{2016\cdot (502,5)}{2016}=502,5$$, portanto $$P_1(x)>502,5$$, observe que usamos o fato de que $$P(x)>P(502,5)$$ para todo $$x>502,5$$, o que é claramente verdade pois a função $$P$$ forma uma parábola com concavidade para cima. Indutivamente se $$P_n(x)>502,5$$ então $$P_{n+1}(x)=\dfrac{P(P_n(x))}{2016}>\dfrac{P(502,5)}{2016}>\dfrac{2016\cdot (502,5)}{2016}=502,5$$, logo $$P_{n+1}(x)>502,5$$, e assim $$P_n(x)>502,5>0$$ para todo $$n$$, logo nunca teremos $$P_n(x)<0$$ para $$x>502,5$$.
Agora olhemos para este lema:
Lema 2: $$P(x)=P(-3-x)$$ para todo $$x$$ real.
Prova: Olhemos a coordenada $$x$$ do vértice ($$x_V$$) da parábola formada pela função $$P$$, que é uma parábola. Então sabemos que $$x_V=\dfrac{-12}{4\cdot2}=-1,5$$. Sabemos além disso que $$P(a)=P(b)$$ para algum par $$a,b$$ então como $$P$$ é uma parábola, vale que $$a$$ e $$b$$ possuem a mesma diferença em relação ao $$x_V$$, ou seja, $$\dfrac{a+b}{2}=x_V$$, logo temos $$a+b=-3 \Rightarrow a=-3-b$$, ou seja, $$P(-3-b)=P(b)$$, para todo $$b$$ real, como queríamos.
Vejamos agora que pelo lema 2 $$P(502,5)=P(-505,5)$$, logo como para todo $$x>502,5$$ vale pelo lema 1 que para todo $$n$$ teremos $$P_n(x)>502,5$$, então se $$x<505,5$$ simetricamente e analogamente teríamos $$P(x)>502,5$$, o que implicaria pelo lema 1 que para todo $$n$$ teremos $$P_n(x)>502,5$$ (é como estivéssemos começando do $$P_1(x)>502,5$$). A partir desta duas informações, nosso universo de candidatos a solução se reduziu para $$x$$ entre $$-505,5$$ e $$502,5$$, provaremos que todos estes números satisfazem as condições propostas pelo enunciado. Basicamente dividiremos os números em dois grupos, analisando o gráfico de $$P$$ veremos que existem os números $$x$$ que possuem $$P(x)$$ positivo (que estão “acima e abaixo” das raízes) e os que possuem $$P(x)$$ negativo (que estão entre as raízes). Primeiramente vejamos que as raízes de $$P(x)$$ são $$r_1=\dfrac{12-\sqrt{48384}}{8}$$ e $$r_2=\dfrac{12-\sqrt{48384}}{8}$$. Logo, considerando apenas o universo possível de soluções:
Lema 3: Se $$x>r_2$$ então para algum $$t$$ teremos $$P_t(x)<0$$.
Prova: Considerando $$P_n(x)$$ como uma sequência provaremos que a mesma sempre decresce e nunca converge para algum ponto. Vendo novamente o polinômio $$Q(x)$$, sabemos que como aqui $$x<502,5$$ então $$P(x)<2016x$$, logo para $$n$$ qualquer teremos $$P_{n+1}(x)=\dfrac{P(P_n(x))}{2016}<\dfrac{2016\cdot P_n(x)}{2016}=P_n(x)$$, logo $$P_{n+1}(x)<P_n(x)$$ e como $$P(x)$$ possui seu coeficiente de $$x^2$$ e $$x$$ positivos, esta diferença entre $$P_{n+1}(x)$$ e $$P_n(x)$$ empre aumentará a medida que aumentarmos $$n$$ e portanto $$P_n(x)$$ irá sempre decrescer e nunca convergir em algum ponto, portanto em algum momento teremos que para alguém $$t$$, $$P_t(x)<0$$, como queríamos.
Vejamos agora que se $$x<r_1$$ pelo lema 2 teremos uma simetria e então podemos aplicar o lema 3, podendo assim afirmar que para qualquer $$x$$ que escolhermos, então em algum momento teremos $$P_t(x)<0$$. Agora para finalizar o problema:
Lema 4: Se $$r_1<x<r_2$$ então $$r_1<P_n(x)<r_2$$ para todo $$n$$.
Prova: vejamos que a coordenada $$y$$ do vértice da parábola é $$y_V=-1,5\cdot2016$$, basta olhar que $$-1,5$$ é raiz de $$Q(x)$$ e portanto $$P(x)=2016x$$, no caso $$x=-1,5$$. Portanto para todo $$r_1<x<r_2$$ vale que $$-1,5\cdot2016<P(x)<0$$, logo $$P_1(x)=\dfrac{P(x)}{2016}$$ e $$-1,5<P_1(x)<0$$ e indutivamente se $$-1,5<P_n(x)<0$$ então $$P_{n+1}(x)=\dfrac{P(P_n(x))}{2016}$$ logo $$\dfrac{P(-1,5)}{2016}<P_{n+1}(x)<\dfrac{P(0)}{2016}$$, mas $$P(-1,5)=-1,5\cdot2016$$ e $$P(0)<0$$. Então $$-1,5<P_n(x)<0$$ e assim temos que para todo $$n$$ vale que $$P_n(x)<0$$.
Pelo lema 3 para todo $$x$$ teremos que existe $$t$$ tal que $$P_t(x)<0$$, mas como $$P_t(x)=\dfrac{P(P_{t-1}(x))}{2016}$$, mas $$-1,5\cdot2016<P(x)$$, logo $$P_t(x)>-1,5$$ e $$r_1<P_t(x)<r_2$$ e podemos aplicar o lema 4 a partir daí e então teremos infinitos $$n$$ tais que $$P_n(x)<0$$. Portanto para todo $$x$$ tal que $$-505,5<x<502,5$$ temos que $$x$$ satisfaz o enunciado, logo existem $$1008$$ inteiros que satisfazem o enunciado.
Problema 6:
Seja $$ABCD$$ um quadrilátero convexo, não circunscritível, sem lados paralelos. As retas $$AB$$ e $$CD$$ se cortam em $$E$$. Seja $$M\ne E$$ a intersecção dos circuncírculos de $$ADE$$ e $$BCE$$. As bissetrizes internas de $$ABCD$$ determinam um quadrilátero convexo cíclico de circuncentro $$I$$ e as bissetrizes externas de $$ABCD$$ determinam um quadrilátero convexo cíclico de circuncentro $$J$$. Prove que $$I$$,$$J$$ e $$M$$ são colineares.
Solução:
(Adaptado de Davi Lopes – Professor do Colégio Farias Brito)
Seja $$I_{XY}$$ a interseção das bissetrizes internas de $$X$$ e $$Y$$, e $$J_{XY}$$ a interseção das bissetrizes externas de $$X$$ e $$Y$$, onde $$X$$, $$Y$$ são vértices consecutivos de $$ABCD$$. Seja $$\Gamma$$ a circunferência que passa por $$J_{AB}$$, $$J_{BC}$$, $$J_{CD}$$, $$J_{DA}$$ e $$\gamma$$ a circunferência que passa por $$I_{AB}$$, $$I_{BC}$$, $$I_{CD}$$, $$I_{DA}$$. Sejam $$r$$ o raio de $$\gamma$$ e $$R$$ o raio de $$\Gamma$$, $$d=IJ$$. Seja ainda $$M’$$ a interseção do eixo radical de $$\gamma$$ e $$\Gamma$$ com a reta $$IJ$$.
Lema 1: Existem duas homotetias que levam $$\gamma$$ em $$\Gamma$$, uma de centro $$K_{+}$$ e razão $$\dfrac{R}{r}$$, e outra de centro $$K_{-}$$ e razão $$-\dfrac{R}{r}$$. Além disso, os cinco pontos $$I$$, $$J$$, $$K_{+}$$, $$K_{-}$$, $$M’$$ são todos colineares e satisfazem à figura abaixo e às equações de segmentos:
$$JK_{-}=\dfrac{Rd}{R+r}$$; $$IK_{-}=\dfrac{rd}{R+r}$$; $$IK_{+}=\dfrac{rd}{R-r}$$; $$K_{+}M’=\dfrac{(R+r)[(R-r)^2-d^2]}{2d(R-r)}$$
Podemos determinar as três primeiras equações com base nas relações de homotetia e o valor de $$K_{+}M’$$ associando os valores encontrados com a propriedade de $$M’$$: pertence ao eixo radical das circunferências e por isso tem mesma potência de ponto para ambas.
Seja $$E$$ a interseção de $$AB$$ e $$CD$$, e seja $$F$$ a interseção de $$AD$$ e $$BC$$. Observe que os pontos $$I_{AB}$$, $$J_{AB}$$, $$I_{CD}$$, $$J_{CD}$$ estão em $$l_{+}$$, na bissetriz interna de $$\angle{AFB}=\angle{DFC}$$ (eles são centros de circunferências inscritas e ex-inscritas opostos a esse ângulo), e os pontos $$I_{BC}$$, $$J_{BC}$$, $$I_{DA}$$, $$J_{DA}$$ estão em $$l_{-}$$, na bissetriz interna de $$\angle{AED}=\angle{BEC}$$ pelo mesmo motivo. A razão de chamar essas retas usando sinais está elucidada no Lema 2.
Lema 2: Considerando a configuração de pontos a seguir, temos que o ponto $$K_{+}$$ está na reta $$l_{+}$$ e o ponto $$K_{-}$$ está na reta $$l_{-}$$.
Prova: Seja $$I’_{DA}$$ o ponto, em $$\gamma$$, diametralmente oposto a $$I_{DA}$$ , e $$I’_{BC}$$ o ponto diametralmente oposto a $$I_{BC}$$ em $$\gamma$$. Pode-se provar, usando arrastão, que $$I_{AB}I’_{BC}I_{CD}I’_{DA}$$ e $$J_{AB}J_{BC}J_{CD}J_{DA}$$ são dois quadriláteros cíclicos com lados homólogos e diagonais homólogas, todos paralelos. Daí, como eles são orientados no mesmo sentido, a homotetia de centro $$K_{+}$$ que leva $$\gamma$$ em $$\Gamma$$ leva $$I_{AB}I’_{BC}I_{CD}I’_{DA}$$ em $$J_{AB}J_{BC}J_{CD}J_{DA}$$. Logo, $$K_{+}$$ está na reta $$I_{AB}J_{AB}$$, que é a reta $$l_{+}$$. Analogamente, $$K_{-}$$ está na reta $$l_{-}$$, provando o lema 2.
Agora, seja $$l$$ a reta que passa por $$I$$, $$J$$, $$K_{+}$$, $$K_{-}$$, $$M’$$, $$\angle{BFA}=2\alpha$$, $$\angle{AED}=2\beta$$. Sejam ainda $$M_{XY}$$ os pontos médios de $$I_{XY}J_{XY}$$.
Lema 3: $$\angle(\angle{M_{BC}M’},l)=\alpha$$
Prova: Primeiro, é possível provar que $$\angle{II_{DA}I_{BC}}=\alpha$$ por arrastão. Para finalizar a prova, basta provar que $$II_{DA}M’M_{BC}$$ é inscritível, pois aí $$\angle(\angle{M_{BC}M’},l)=\angle{M_{BC}M’I}=\angle{II_{DA}I_{BC}}=\alpha$$. Para tanto, provaremos que $$K_{-}I\cdot K_{-}M’=K_{-}I_{DA}\cdot K_{-}M_{BC}$$.
Como $$J_{BC}$$ é a imagem de $$I_{BC}$$ pela homotetia de centro $$K_{-}$$ e razão $$-\dfrac{R}{r}$$, temos:
$$K_{-}J_{BC}=\dfrac{R}{r}\cdot K_{-}I_{BC} \Rightarrow I_{IB}J_{BC}=\dfrac{R+r}{r}\cdot K_{-}I_{BC} \Rightarrow M_{BC}J_{BC}=\dfrac{R+r}{2r}\cdot K_{-}I_{BC} \Rightarrow K_{-}M_{BC}=K_{-}J_{BC}-M_{-}J_{BC}=\dfrac{R-r}{2r}\cdot K_{-}I_{BC}$$
Daí:
$$K_{-}I_{DA}\cdot K_{-}M_{BC}=\dfrac{R-r}{2r}\cdot K_{-}I_{DA}\cdot K_{-}I_{BC}=\dfrac{R-r}{2r}\cdot -(Pot_{\gamma} K_{-})= \dfrac{R-r}{2r}\cdot(r^2 – K_{-}I^2)$$
Por outro lado, $$K_{-}I=\dfrac{rd}{(R+r)}$$ pelo resultado obtido no lema $$1$$, assim:
$$K_{-}I_{DA}\cdot K_{-}M_{BC}=$$
$$\dfrac{R-r}{2r}\cdot[r^2 – (\frac{rd}{(R+r)})^2]=$$
$$\dfrac{R-r}{2r}\cdot[\dfrac{r^2(R+r)^2 – (rd)^2}{(R+r)^2}]=$$
$$\dfrac{(R-r)[r^2(R+r)^2 – (rd)^2]}{2r(R+r)^2}$$
Para terminar, basta calcular o valor de $$K_{-}I \cdot K_{-}M’$$ com os dados encontrados também no lema e conferir a igualdade. Primeiro, vamos encontrar $$K_{-}M’$$:
$$K_{-}M’ = K_{-}I + IK_{+} + K_{+}M’=$$
$$\dfrac{rd}{R+r} + \dfrac{rd}{R-r} + \dfrac{(R+r)[(R+r)^2-d^2]}{2d(R-r)}=$$
$$\dfrac{2rd^2(R-r) + 2rd^2(R+r) + (R+r)^2[(R-r)^2 – d^2]}{2d(R+r)(R-r)}=$$
$$\dfrac{2rd^2(R-r+R+r) + (R+r)^2(R-r)^2 – d^2(R+r)^2}{2d(R+r)(R-r)}=$$
$$\dfrac{4rRd^2 + (R+r)^2(R-r)^2 – d^2(R+r)^2}{2d(R+r)(R-r)}=$$
$$\dfrac{(R+r)^2(R-r)^2 – d^2[(R+r)^2 – 4Rr]}{2d(R+r)(R-r)}=$$
$$\dfrac{(R+r)^2(R-r)^2 – d^2(R-r)^2}{2d(R+r)(R-r)}=$$
$$\dfrac{(R-r)^2[(R+r)^2 – d^2]}{2d(R+r)(R-r)}=$$
$$\dfrac{(R-r)[(R+r)^2 – d^2]}{2d(R+r)}$$
Agora basta multiplicar pelo valor de $$K_{-}I$$, que também pode ser encontrado utilizando o lema $$1$$:
$$K_{-}M’ \cdot K_{-}I=$$
$$\dfrac{(R-r)[(R+r)^2 – d^2]}{2d(R+r)} \cdot \dfrac{rd}{(R+r)}=$$
$$\dfrac{r(R-r)[(R+r)^2 – d^2]}{2(R+r)^2}=$$
$$\dfrac{r^2(R-r)[(R+r)^2 – d^2]}{2r(R+r)^2}=$$
$$\dfrac{(R-r)[r^2(R+r)^2 – (rd)^2]}{2r(R+r)^2}$$
Exatamente o esperado e assim terminamos a prova.
De modo análogo ao Lema 3, temos que $$\angle(\angle{M_{CD}M’},l)=\beta$$, $$\angle(\angle{M_{DA}M’},l)=\alpha$$, $$\angle(\angle{M_{AB}M’},l)=\beta$$, donde temos as igualdades de ângulos:
$$\angle{M_{AB}M’M_{BC}}=\angle{M_{BC}M’M_{CD}}=\angle{M_{CD}M’M_{DA}}=\angle{M_{DA}M’M_{AB}}=\alpha+\beta$$
E assim $$M’$$ está na interseção dos $$4$$ arcos capazes de $$\alpha+\beta$$ determinados por $$M_{AB}M_{BC}$$, $$M_{BC}M_{CD}$$, $$M_{CD}M_{DA}$$, $$M_{DA}M_{AB}$$, ou seja, $$M’$$ é o único ponto no plano com essa propriedade. Mas e aí que entra o ponto $$M$$, pois pode-se provar, por arrastão, que o ponto $$M$$ também satisfaz a igualdade de ângulos:
$$\angle{M_{AB}MM_{BC}}=\angle{M_{BC}MM_{CD}}=\angle{M_{CD}MM_{DA}}=\angle{M_{DA}MM_{AB}}=\alpha+\beta$$
E assim $$M=M’$$. Como $$M’$$, $$I$$, $$J$$ já são colineares, temos que $$I$$, $$J$$, $$M$$ são colineares.
OBSERVAÇÃO: Pode-se deduzir, de tudo o que fizemos, que a reta $$IJ$$ é bissetriz de $$\angle{AMC}$$, $$\angle{BMD}$$ e $$\angle{EMF}$$. Também, perceba que $$Pot_{\Gamma} M =Pot_{\gamma} M$$.




