Por: Letícia Frota Barreto.
Interação Luz-Matéria
Quando a luz branca incide sobre uma solução de sulfato de cobre, os olhos humanos percebem um tom azul. Isso ocorre porque a solução absorve as cores complementares (como o laranja e o vermelho) e deixa passar (transmite) a radiação na faixa do azul. A espectrofotometria transforma essa percepção visual em um método quantitativo, utilizando a quantidade de luz absorvida por uma substância para identificá-la (análise qualitativa) e determinar sua concentração (análise quantitativa).
Mecanismo de Absorção
Quando uma molécula recebe um fóton de luz na região do Ultravioleta ( = 200 a 400 nm) ou do Espectro Visível ( = 400 a 800 nm), a energia desse fóton ($$\Delta E$$) pode ser exatamente igual à diferença de energia entre o orbital eletrônico ocupado de maior energia (HOMO) e o orbital desocupado de menor energia (LUMO).
$$\Delta E = h \cdot f = \frac{h \cdot c}{\lambda}$$
Em que:
- é a constante de Planck ()
- é a frequência da luz ()
- é a velocidade da luz ()
- é o comprimento de onda ()
Nas moléculas orgânicas, os elétrons que sofrem essas transições pertencem geralmente a ligações duplas ou triplas (elétrons ) ou são elétrons não-ligantes, visto que têm mais liberdade de movimento.
Estruturas com sistemas conjugados (ligações duplas e simples alternadas) absorvem comprimentos de onda maiores, deslocando-se para a região do visível, pois a diferença de energia ($$\Delta E$$) diminui à medida que a conjugação da molécula aumenta. Isso ocorre porque à medida que se adicionam ligações duplas e simples alternadas, os orbitais p paralelos de átomos vizinhos se sobrepõem e se misturam ao longo de toda a cadeia de carbono, gerando um sistema no qual o novo orbital HOMO tem sua energia elevada e o novo LUMO tem sua energia reduzida. Esse estreitamento do vão energético faz com que a molécula necessite de menos energia para excitar seus elétrons; como a energia do fóton é inversamente proporcional ao seu comprimento de onda, uma diminuição em $$\Delta E$$ desloca o pico de absorção para comprimentos de onda maiores.
Transmitância (T) e Absorbância (A)
Quando um feixe de luz com intensidade inicial atravessa uma cubeta de caminho óptico contendo uma solução, a intensidade da luz que emerge do outro lado é .
A Transmitância (T) é a fração de luz que atravessa a amostra:
ou %
Como a Transmitância varia de forma exponencial com a concentração da amostra, define-se a Absorbância (A), que é uma grandeza logarítmica e adimensional, facilitando correlações lineares:
A Lei de Beer-Lambert
A Lei de Beer-Lambert estabelece uma relação linear direta entre a absorbância e a concentração do analito:
Em que:
- : Absorbância (adimensional).
- : Coeficiente de extinção molar ou absortividade molar (), que depende da identidade da substância e do comprimento de onda.
- : Caminho óptico da cubeta (geralmente ).
- : Concentração da solução ().
Instrumentação
- O Espectrofotômetro de Feixe Simples:
Em um equipamento de feixe simples, a luz policromática de uma lâmpada passa por um monocromador (rede de difração), que separa os comprimentos de onda e seleciona uma faixa estreita para atravessar a amostra.

A transmitância é registrada como , onde é a energia radiante que chega ao detector com a solução sem analito e é a energia que atinge o detector com a amostra. Nesse sistema, a solução sem analito e a amostra são inseridos alternadamente no mesmo caminho óptico.
O modelo apresenta erro caso a intensidade da fonte de luz ou a resposta do detector variem entre as duas medições.
- O Espectrofotômetro de Duplo Feixe:
Para corrigir flutuações da lâmpada ou do detector ao longo do tempo, os aparelhos de duplo feixe utilizam um espelho rotatório (alternador de feixe). Este componente divide a luz que sai do monocromador em dois caminhos paralelos, enviando-a simultaneamente através da cubeta de referência e da cubeta da amostra até o detector.

As intensidades são comparadas em tempo real, cancelando variações instrumentais e permitindo varreduras rápidas de espectro.
- Fontes de radiação:
Em espectrofotômetros UV-Vís típicos, a cobertura de todo o espectro óptico é realizada pela alternância entre duas fontes principais: a lâmpada de deutério (), que fornece radiação contínua na região do ultravioleta (200 a 400 nm) por meio de descarga elétrica controlada, e a lâmpada de tungstênio, que opera nas regiões do visível e infravermelho próximo (320 a 2500 nm).
Para garantir que o equipamento sempre utilize a fonte de maior intensidade e sensibilidade, a troca entre as lâmpadas ocorre automaticamente em 360 nm.
- Monocromador:
O monocromador é responsável por dispersar a radiação policromática nas suas componentes espectrais e selecionar uma faixa estreita de comprimento de onda (radiação monocromática) para incidir sobre a amostra. Sua estrutura básica consiste em uma fenda de entrada, espelhos colimadores e de focalização, um elemento de dispersão (rede de difração) e uma fenda de saída.
A rede de difração contém ranhuras paralelas gravadas em sua superfície. Ao incidir nessa estrutura, a radiação é refletida ou transmitida, e cada ranhura passa a se comportar como uma fonte pontual e independente de luz. Devido à difração e a interferência óptica, os diferentes comprimentos de onda são direcionados (dispersos) em ângulos distintos.
Em um monocromador de rede típico, o processo óptico ocorre nas seguintes etapas:
- Colimação: A radiação policromática entra pela fenda de entrada e atinge um primeiro espelho côncavo, que transforma o feixe divergente em um feixe de raios paralelos (colimados).
- Dispersão: Esse feixe paralelo atinge a rede de difração, onde os diferentes comprimentos de onda são difratados em ângulos específicos.
- Focalização: A radiação dispersa incide em um segundo espelho côncavo, que focaliza cada comprimento de onda em um ponto distinto ao longo do plano focal de saída.
- Seleção: Ao rotacionar mecanicamente a rede de difração, o pesquisador escolhe qual comprimento de onda exato será direcionado através da fenda de saída em direção à amostra.
- Materiais de Cubetas:
O material do porta-amostras varia conforme a região de análise:
- Vidro ou Plástico: Utilizados apenas na região do Visível, pois absorvem radiação ultravioleta.
- Quartzo: Transparente em todo o espectro (UV e Visível), sendo obrigatório para leituras abaixo de 350 nm.
Prática de Laboratório e Análise Quantitativa
- O Espectro de Absorção e a Escolha de :
O gráfico da variação da absorbância em função do comprimento de onda ( vs ) é chamado de espectro de absorção. O ponto de maior absorção é . As análises quantitativas são realizadas nesse comprimento de onda específico devido a dois fatores:
- Maior sensibilidade: Pequenas variações de concentração produzem as maiores variações de leitura.
- Minimização de erros: No topo da curva, a inclinação é nula (), reduzindo o impacto de pequenas flutuações do monocromador sobre o valor de absorbância obtido.
- O Método da Curva de Calibração:
Para quantificar um analito, preparam-se soluções padrão de concentrações conhecidas, mede-se a absorbância de cada uma e constrói-se um gráfico de Absorbância vs Concentração. A equação da reta gerada por regressão linear (y = ax + b) é utilizada para calcular a concentração das amostras desconhecidas a partir de suas respectivas absorbâncias.
- Limitações e Desvios da Lei de Beer:
A linearidade da Lei de Beer-Lambert restringe-se a soluções diluídas (geralmente < 0,01 M). Os desvios são classificados em:
- Químicos: Em altas concentrações, as interações eletrostáticas entre as moléculas vizinhas alteram a distribuição de cargas e modificam o valor de . Alterações de pH e equilíbrios químicos de associação ou dissociação também causam desvios.
- Instrumentais: Provocados por radiação espúria (luz que atinge o detector sem passar pela amostra) ou pelo uso de luz que não seja perfeitamente monocromática.
- Erros experimentais:
As condições físicas da cubeta afetam diretamente os resultados analíticos:
- Marcas de dedos ou riscos: Espalham a luz incidente. Menos luz atinge o detector ( diminui), resultando em uma absorbância falsamente elevada.
- Cubeta molhada com solvente: Dilui a solução teste, diminuindo a concentração e gerando uma absorbância falsamente baixa.
- Soluções turvas: provocam o espalhamento da luz por suspensão de partículas, elevando o valor de absorbância final.
- O Princípio da Aditividade (Análise de Misturas):
A absorbância é uma propriedade aditiva. Se dois componentes ( e ) coexistem em uma mesma solução e absorvem luz no mesmo comprimento de onda, a absorbância total é a soma das contribuições individuais:
Para determinar as concentrações individuais de uma mistura, mede-se a absorbância total em dois comprimentos de onda distintos ( e ), montando um sistema de equações lineares:
- Erro Fotométrico Relativo:
A precisão instrumental varia com o nível de absorbância da amostra. Em soluções muito diluídas (), a intensidade de se aproxima de , tornando o sinal difícil de distinguir do ruído eletrônico do aparelho. Em soluções muito concentradas (), a quantidade de luz que chega ao detector é mínima, tornando a leitura vulnerável a erros causados por luz espúria. A faixa ideal de leitura, onde o erro fotométrico é mínimo, situa-se entre 0,3 e 0,8.
