Como escrever um bom Relatório?

Escrito por William Kotsubo e Lucas Aratake

Um dos grandes diferenciais da IYPT é o seu enfoque em tentar replicar ao máximo possível o processo que ocorre durante a pesquisa científica no mundo real. Nesse espírito, a 1ª fase da IYPT Brasil requer a produção de 2 relatórios, que devem ser apresentados de maneira muito semelhante à de artigos científicos.

Sabemos isso não é uma tarefa fácil, e que muito provavelmente haverão várias dificuldades abrangendo tanto a familiaridade com os softwares quanto a escolha de palavras. Então, criamos esse guia para te dar uma noção geral sobre todos os conhecimentos necessários para arrasar durante essa fase do torneio!

Considerações gerais

Para início, é importante ressaltar a formatação requerida pela regulamentação da IYPT:

  • Fonte Computer Modern (padrão do LaTeX) ou Arial;
  • Texto de tamanho 12 e títulos e subtítulos de tamanho 14;
  • Espaçamento duplo entre linhas e coluna simples (coluna única);
  • Tamanho mínimo de 5 páginas, e máximo de 20 páginas.

Lembre-se que, por mais que seja uma olimpíada de conhecimentos, a apresentação e formatação do trabalho são muito importantes, tanto pela impressão dos corretores, quanto pela compreensão do conteúdo. Por isso, deve-se atenção especial à escrita, em que devem ser observados os seguintes pontos: objetividade, clareza, gramática e o encadeamento coerente de ideias. Tente sempre se basear nos moldes da literatura científica ao observar esses pontos. Ademais, todas as afirmações baseadas em materiais externos devem ser referenciados na bibliografia do seu relatório.

Você também deve tomar cuidado com o prazo de entrega. Embora possa parecer óbvio, é muito comum deixar para terminar o relatório dias antes da entrega. Não deixe isso acontecer, pois se não erros muito simples podem passar despercebidos no desespero! Tente sempre terminar com antecedência. De acordo com o regulamento, relatórios entregues até 2 dias após o prazo terão descontados 25% da nota, e novos relatórios não poderão ser entregues após essa data.

Em geral, os relatórios da IYPT são feitos ou no Google Documentos/Microsoft Word, ou então usando LaTeX (recomendamos o Overleaf para isso), mas a princípio, qualquer aplicativo pode ser usado para criar seu relatório, contanto que possa ser exportado ao formato pdf. Para os principais aplicativos mencionados, a equipe da IYPT Brasil disponibilizou templates de relatório: Google Documentos/Microsoft Word ou LaTeX (comentado). Inclusive, este último também é um ótimo recurso para ajudá-lo na criação do seu relatório.

Finalmente, vale lembrar que nós iremos mostrar um modelo de como redigir seu texto, mas você não deve seguir à risca a forma que apresentamos. Cada pessoa escreve de uma forma ligeiramente diferente, e cada problema enfatizará pontos diferentes. Contanto que siga as nossas instruções gerais, temos certeza que arrasará!

Os critérios de correção completos podem ser encontrados no site da IYPT Brasil (tabela de correção), sendo que a nota máxima de um relatório é de 100 pontos.

Resumo

O resumo de um relatório científico é uma das partes mais importantes do documento, pois é a primeira impressão que o leitor terá do seu trabalho. Ele é a “vitrine” do seu trabalho, devendo capturar a essência do seu projeto de forma breve e atrativa. Geralmente, deve conter um único parágrafo de 5 a 15 linhas com os seguintes elementos:

  1. Contextualização: Dê uma pequena introdução sobre o tema abordado e a importância do seu estudo.
    Ex:A transferência de calor é um fenômeno crucial em diversos processos naturais e industriais. Este estudo investiga a eficiência de diferentes materiais isolantes na redução da perda de calor.
  2. Introdução: Apresente o ponto central da introdução do relatório, e quais ferramentas físicas e matemáticas você utilizou.
    Ex:Neste experimento, analisamos a capacidade de isolamento térmico de materiais com diferentes propriedades físicas, por meio das leis de Fourier.
  3. Ideia geral e objetivos do procedimento: Descreva brevemente o método e os principais objetivos.
    Ex:Utilizando amostras de lã de vidro, espuma de poliuretano e cortiça, medimos a variação de temperatura ao longo do tempo para cada material, empregando sensores térmicos precisos.
  4. Conclusão: Indique os principais resultados e sua relevância.
    Ex:Os resultados indicaram que a espuma de poliuretano apresentou a melhor performance como isolante térmico, oferecendo percepções valiosas para aplicações industriais. Esses achados podem contribuir para o desenvolvimento de tecnologias mais eficientes em conservação de energia.

Dicas:

  • O resumo, apesar de ser a primeira seção a ser lida, sempre deve ser a última seção a ser escrita no seu relatório, pois irá conter informações finais sobre o projeto;
  • Evite escrever fórmulas, a não ser que seja crucial;
  • Concentre-se nos aspectos mais importantes e inovadores do seu projeto, lembre-se, o resumo é uma “vitrine” do seu projeto.

Introdução

A introdução de um relatório serve para contextualizar o trabalho, apresentar o problema abordado, e delinear os objetivos da pesquisa, pode parecer com o que é feito no resumo, por que é, mas saiba que o resumo é uma versão sucinta do que é escrito no relatório, então aqui você não deve poupar palavras para descrever seu trabalho. A introdução deve ser bem organizada e conter os seguintes elementos:

  1. Análise do Enunciado: Faça um parágrafo descrevendo a investigação pedida pelo enunciado, e o como e porquê do fenômeno do enunciado ocorrer, comparando e contextualizando o problema com situações práticas.
    Ex:O enunciado descreve um clássico brinquedo de madeira, a construção de brinquedos desse tipo, conhecidos como “Ramp Walker”, oferece uma oportunidade única para explorar os princípios fundamentais da física, mecânica e geometria. Ao colocar o brinquedo em uma rampa áspera, o fenômeno de caminhada se manifesta, revelando uma interação complexa entre a estrutura do andador e as condições do ambiente, descrita por um sistema de oscilações das patas do andador, influenciado pela angulação do plano, peso do objeto e atrito da rampa. À medida que o andador avança pela rampa, o ciclo de movimento oscilante continua e cada perna do andador toca a superfície em uma sequência coordenada, garantindo um movimento contínuo ao longo da rampa, fazendo parecer com que a construção comece a “andar”.
  2. Objetivos do relatório: Descreva os objetivos principais do seu estudo, e a divisão que será feita no relatório.
    Ex:Nesse contexto, este relatório tem o objetivo de explorar os parâmetros relevantes para o fenômeno e, também, como a geometria do andador influenciam no movimento, ademais, avaliar, com a comparação teórico-experimental, a acurácia dessa investigação. Para alcançar tal objetivo será apresentado, primeiramente, uma abordagem teórica, posteriormente com uma análise matemática do problema. Em segundo momento, será destacada a metodologia experimental, descrevendo o experimento em questão. Em terceira análise, será qualificado, pelos resultados obtidos, o quão bem a teoria explica o fenômeno, como também possíveis melhorias. Por fim, na conclusão, será feito uma síntese do conteúdo apresentado no relatório e será avaliado se concluiu seus objetivos.

Dicas:

  • Utilize imagens para ilustrar a ocorrência do fenômeno;
  • A ideia é dissertar sobre o assunto e, por isso, não é preciso fazer abordagens técnicas nem cálculos na introdução.

Fundamentação Teórica

Essa seção é dedicada ao estudo da teoria como um todo, que será então utilizada para comparar com os resultados experimentais. Ela deve destacar as previsões qualitativas que descrevem o fenômeno, bem como os modelos matemáticos que serão utilizados, acrescentados por uma pequena justificativa e descrição do que elas significam. Veja também o guia do NOIC sobre a teoria!

  1. Fundamentos Teóricos: Explique a teoria básica que embasa o seu estudo, descrevendo-a qualitativamente. Detalhe as fórmulas e conceitos fundamentais sem incluir fórmulas complexas no texto principal.
    Ex:Para analisar o comportamento de um sistema massa-mola, utilizamos a teoria clássica de ressonância. A frequência natural de um sistema massa-mola é dada pela fórmula f=\frac{1}{2\pi}\sqrt{\frac{k}{m}}, onde f é a frequência de ressonância, k é a constante da mola e m é a massa. Esta relação sugere que a frequência aumenta com a raiz quadrada da constante da mola e diminui com o aumento da massa.
  2. Desenvolvimento Teórico: Descreva como a teoria foi aplicada ao problema específico do estudo. Explique qualquer simplificação ou suposição feita para facilitar a análise.
    Ex: “Assumimos que o sistema é ideal, sem considerar forças dissipativas como atrito ou resistência do ar. Utilizamos a equação de movimento harmônico simples para modelar o comportamento oscilatório e calcular as amplitudes esperadas para diferentes configurações de massa e constante da mola.”
  3. Desenvolvimento Matemático: Apresente os modelos matemáticos desenvolvidos e explique como eles foram usados para prever os resultados experimentais.
    Ex: “Desenvolvemos um modelo matemático para prever a amplitude máxima das oscilações em função da frequência de excitação. A equação diferencial que descreve o movimento é m \frac{d^2x}{dt^2}+kx=0, onde x é o deslocamento. Resolvemos esta equação para diferentes valores de k e m, gerando previsões teóricas que foram comparadas com os dados experimentais.”

Dicas:

  • Não se esqueça de explicar o que cada uma das variáveis significam, seja por meio de diagramas, imagens, ou simplesmente dedicando pequenos trechos a esse respeito.
  • Inclua diagramas para permitir uma melhor compreensão do que está sendo dito. Isso pode ser importante para a ilustração de forças ou variáveis relevantes, para apresentar uma mudança de sistema de coordenadas, ou simplesmente para ilustrar um raciocínio.
  • Sempre que utilizar algum material em seu artigo, referencie-o. Materiais de artigos e de livros ajudam a dar um embasamento ao que está sendo dito.

Procedimento Experimental

A seção de procedimento experimental deve explicar como a pesquisa foi conduzida. Ela deve detalhar os aparatos experimentais utilizados, permitindo que outros pesquisadores possam reproduzir seu estudo. Esta seção deve ser clara, detalhada, e estruturada de maneira lógica. Veja também o guia do NOIC sobre a experimental!

  1. Setup Experimental: Nessa parte, descreva o ambiente e os equipamentos usados para realizar o experimento. Lembre-se que o leitor não conhece a sua montagem – forneça informações e imagens suficientes para que ele visualize como tudo foi configurado. Pode ser interessante fornecer detalhes de como o seu aparato evoluiu com o tempo, descrevendo os problemas encontrados e as formas utilizadas de contorná-los.
    Ex:
    – Parafusos 4,0 x 19,0 (± 0,5) mm
    – Painel de madeira sólida 400,0 x 200,0 x 17,0 (± 0,5) mm
    – Dobradiça de aço cromado 76,0 x 64,0 (± 0,5) mm
    – Câmera de Celular (240 ± 0,5) fps
  2. Construção do Experimento: Descreva o processo de contrução de todas etapas do experimento, detalhando cada etapa da formação.
    Ex: “Primeiramente foram colocado as placas em série, alinhadas, com um pequeno espaço entre elas, para que as dobradiças possam ser colocadas e parafusadas no local. Com auxílio de detergente, para lubrificar e prevenir os danos ao parafuso e à madeira, parafusamos as três dobradiças às placas em espaços equivalentes entre elas, de forma que a rampa não varie e fique rígida.”
  3. Procedimento Experimental: Detalhe os passos seguidos durante o experimento, para a obtenção do fenômeno. Esta descrição deve ser tão clara quanto possível para que outro pesquisador possa reproduzir o procedimento com base nas suas informações. Por isso, deve-se descrever todos os cuidados experimentais que foram tomados para garantir a qualidade dos dados.
    Ex: “Inicialmente, a esfera foi posicionada a uma altura de 1 metro sobre cada amostra, e, em seguida, foi liberada sem impulso adicional. O sensor de força registrou os dados durante o impacto, e cada teste foi repetido cinco vezes para garantir a reprodutibilidade dos resultados. Para a obtenção de dados foi utilizado o software Tracker.”

Dicas:

  • Seu experimento deve ser reprodutível, então descreva todas etapas cuidadosamente e utilize imagens e diagramas para auxiliar na visualização do seu setup experimental;
  • Identifique as variáveis controladas, dependentes e independentes do experimento. Explique como essas variáveis foram monitoradas ou ajustadas para minimizar erros;
  • Descreva os dados coletados e como eles foram registrados. Muitas vezes, isso inclui tabelas, gráficos ou outras representações visuais que facilitam a análise posterior.

Resultados e Discussão

A seção de resultados e discussão é fundamental para avaliar o quanto a teoria que você desenvolveu ou utilizou consegue prever ou explicar os resultados observados no experimento. Essa parte do relatório é onde você analisa e compara as previsões teóricas com os dados experimentais, destacando pontos de concordância e discrepâncias. É uma oportunidade para demonstrar pensamento crítico, pois você deve avaliar as possíveis causas de diferenças e discutir a precisão e as limitações tanto do modelo teórico quanto do experimento. A seguir, descrevemos alguns exemplos:

  1. Coeficiente de Atrito: Na análise experimental do atrito foi observado que a variação deste não influencia na velocidade terminal do andador, uma vez que não há deslizamento da pata na rampa, sendo, então, apenas o coeficiente de atrito estático válido para o movimento, como previsto pela teoria. O gráfico a seguir demonstra isso:
  2. Angulação do Plano: Por meio dos experimentos foi observado que o andador possui, em geral, três comportamentos distintos em função do ângulo de inclinação. Em última análise, observou-se que, em situações em que o ângulo do plano é consideravelmente elevado, o torque provocado pelo peso supera a força normal e o andador, eventualmente, tomba no plano.

Dicas:

  • Avalie a acurácia do modelo e mencione se ele cumpre seu papel dentro das limitações ou se ajustes são recomendados;
  • Seja específico sobre as fontes de erro. Exemplos comuns incluem atrito, limitações dos instrumentos, e suposições simplificadoras do modelo;
  • Calcule a diferença percentual ou erro relativo entre os valores teóricos e experimentais para facilitar a análise de precisão.

Conclusão

A conclusão é a última seção de um relatório científico e serve para resumir os principais resultados e interpretações do seu trabalho, oferecendo uma visão clara sobre o que foi aprendido com a pesquisa. Lembre-se que ela deve somente reiterar informações que o leitor já saiba, sem adicionar dados novos. É uma seção mais interpretativa, onde você pode enfatizar a relevância dos resultados, reconhecer limitações, e sugerir direções para trabalhos futuros. Em geral, não apresenta subseções e contém poucos parágrafos, que recaptulam a contextualização, o desenvolvimento e resultados, e as conclusões obtidas, nessa ordem.

  • Contextualização
    Retome o fenômeno proposto pelo enunciado do problema, explique brevemente a física por trás e resuma como foi proposta a resolução.
    Ex: O enunciado trata de um fenômeno que ocorre ao colocar um brinquedo em um plano inclinado, tal fenômeno culminou em um padrão sistemático de oscilações das patas e do andador, que produz o efeito de caminhada do objeto pelo plano inclinado. Para analisar a velocidade terminal e parâmetros relevantes, foi utilizado a formulação lagrangeana além de uma abordagem teórica, complementada ao final por uma abordagem experimental, comprovando a eficácia das previsões feitas na seção teórica.”
  • Desenvolvimento
    Descreva os resultados obtidos, explicitando fatores que alteram o fenômeno e aqueles que são irrelevantes para o sistema.
    Ex: “Ao longo do relatório, foi visto que a teoria obteve grande precisão nas descrições do fenômeno em estudo, os experimentos evidenciaram os fatos descritos na abordagem teórica, os quais descreviam a sensibilidade da velocidade terminal do andador às variações na angulação do plano, grau de inclinação da pata e do andador destacando a importância desses elementos na eficiência do movimento. Além disso, foi comprovado a irrelevância do coeficiente de atrito estático para a velocidade terminal e observamos a variação que ocorre no movimento pela mudança na geometria do andador.”
  • Conclusões e finalização
    Destaque se o relatório propôs uma solução para o problema, e sua eficácia, apresentando possíveis melhoras.
    Ex:
    Em resumo, o relatório demonstrou elevada eficácia na abordagem do problema proposto, proporcionando, então, uma solução consistente com experimental coerente e reprodutível. No entanto, é crucial destacar que, apesar da eficácia geral do relatório, foram identificados alguns desvios decorrentes de imprecisões nos meios de medida, como o Tracker, e na obtenção do coeficiente de atrito. Além disso, espera-se que, no futuro, sejam utilizados mais andadores para analisar com maior precisão as variações que ocorre no movimento devido à geometria.”

Bibliografia

Embora não faça parte da grade de correção, é importante dedicar uma pequena seção às referências que você utilizou ao longo do seu relatório. Adicioná-las ao trabalho científico é necessário para embasar as suas equações, permitindo que outros possam verificar seu trabalho, e um artigo mal-referenciado terá alguns pontos descontados. Lembre-se que, seguindo os moldes da literatura, é bom mencionar o trabalho de outros autores diretamente no seu texto se eles motivaram as escolhas teóricas e/ou experimentais que você tomou.

Há diversas formas de formatar a bibliografia, mas contanto que se mantenha um padrão ao longo do relatório, qualquer escolha é válida.

Exemplos de relatórios

De 2025, temos o P12 (Som contra Fogo), com nota 82,25. Este relatório é um exemplo de uma abordagem puramente qualitativa (o que, em geral, deve ser evitado), mas que se destaca pela clareza e profundidade da explicação.

De 2024, temos um relatório do P3 (Andador de Rampa Rígido) com nota 86, e de 2023, disponibilizamos dois relatórios: um do P3 (Sirene), e um do P8 (Pêndulo de Euler), com notas 87,5 e 85, respectivamente. Embora não sigam à risca o novo regulamento de 2024, compartilham um formato muito semelhante e são ótimos exemplos quanto a ilustrações e à escrita.